A Oeste de Santiago, a cerca de duas horas de viagem, estende-se a costa da região de Valparaíso. São perto de 200 quilómetros de costa, banhados pelas águas do Oceano Pacífico, normalmente frias por causa da Corrente de Humboldt. Ainda assim, este é o primeiro destino de férias ou fim-de-semana para os muitos habitantes da região de Santiago e a cidade de Valparaíso é, por direito próprio, a segunda cidade do país.
A nossa primeira incursão a esta costa começou pela casa de Pablo Neruda em Isla Negra e terminou em Valparaíso. Pelo meio, parámos para almoçar em Viña del Mar, uma cidade colada a Valparaíso e contrasta pelo ordenamento urbano quando comparada com o caos urbanístico das encostas da localidade vizinha.
Uns dias depois, para aproveitarmos o fim-de-semana, seguimos até Zapallar, mais a norte mas ainda dentro da mesma região, um destino turístico com casas muito bem integradas na paisagem em torno de uma magnífica baía com uma água a uma temperatura surpreendentemente agradável. No intervalo de uns mergulhos, nada como desenhar sentado na areia...
Depois de termos visto muitas gaivotas, pelicanos e gatos junto ao fantástico restaurante El Chiringuito, fiquei muito surpreendido quando a minha filha me veio dizer que tinha visto um golfinho. Seria, tão perto da costa? Fiquei a olhar para o mar e era verdade. Lá estava o golfinho a vir à superficie regularmente, entre os barcos estacionados na baia. E aparecia mesmo a tempo de entrar no meu desenho...
E assim termina esta série de 18 desenhos repartidos em seis posts. Foi uma viagem fascinante. Ficou muito por ver (Patagónia, Atacama, Ilha da Páscoa...) mas ficam para uma próxima oportunidade.
Uma breve nota técnica sobre os materiais que usei. Fiz os desenhos num caderno Venezia da Fabriano, com folhas de 200gr. O papel é muito bom mas a encadernação revelou-se frágil... Comecei todos os desenhos a lápis (mina de 2mm, 2B) e fixei as linhas com uma velha Parker 51 com tinta Platinum Carbon, que resiste à água. Para pintar, levei uma caixa Aqua-mini da Sennelier, adaptada por mim para levar 12 cores - 8 cores intensas (amarelo PY153, laranja PO73, vermelho PR254, rosa PV19, azuis PB29, PB15:6, PB28 e verde PG36) e 4 cores terra (terra sienna e terra úmbria, naturais e queimadas). Em vez de levar uma cor neutra, preferi ir misturando os cinzentos com azul ultramarino e sienna queimada. Ficam mais transparentes e posso torná-los mais frios ou quentes para cada desenho. O pincel de água é um Sakura Koi, que prefiro, apesar de levar pouca água. E pronto, é tudo!
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Nunca encontrei ninguém completamente incapaz de aprender a desenhar.
John Ruskin, intelectual inglês do século XIX
Pensamos que o Diário Gráfico melhora a nossa observação, faz-nos desenhar mais e o compromisso de colaborar num blogue ainda mais acentua esse facto. A única condição para colaborar neste blogue é usar como suporte um caderno, bloco ou objecto semelhante: o Diário Gráfico.
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sexta-feira, 17 de abril de 2015
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Chile: Cajón del Maipo
Perto de Santiago, o Rio Maipo nasce nos Andes e serpenteia num curso rápido ladeado por montanhas. É o Cajon del Maipo, uma região onde se produzem bons vinhos e que também é procurada para caminhadas e desportos aventura. Para nós, foi uma forma de nos aproximarmos dos Andes logo no dia a seguir a chegarmos ao Chile, sem passarmos muito tempo no carro.
Parámos em San José de Maipo para almoçar e foi aí que abri o caderno e fiz o primeiro desenho da viagem, com os Andes ao fundo e a igreja da cidade enquadrada por duas filas de árvores na praça central da pequena povoação. De regresso ao carro, continuámos a seguir ao longo do Maipo até a estrada acabar, já muito perto da fronteira com a Argentina, pouco antes do vulcão São José.
Quando regressámos, reparámos num conjunto de casas estranhas, junto à estrada entre San Alfonso e Melocoton. Eram casas de madeira que poderiam facilmente ter saído de um conto de fadas. Paredes orgânicas, curvas, feitas de madeira e pedra, portas que teriam feito as delícias do arquitecto catalão Antoni Gaudí. Claro que não podia avançar sem desenhar primeiro, pelo menos, uma das casas.
Regressámos pelo outro lado do rio, deixando os Andes progressivamente para trás e regressando ao terreno plano dessa cidade que continua a crescer no espaço entre as cordilheiras.
Parámos em San José de Maipo para almoçar e foi aí que abri o caderno e fiz o primeiro desenho da viagem, com os Andes ao fundo e a igreja da cidade enquadrada por duas filas de árvores na praça central da pequena povoação. De regresso ao carro, continuámos a seguir ao longo do Maipo até a estrada acabar, já muito perto da fronteira com a Argentina, pouco antes do vulcão São José.
Quando regressámos, reparámos num conjunto de casas estranhas, junto à estrada entre San Alfonso e Melocoton. Eram casas de madeira que poderiam facilmente ter saído de um conto de fadas. Paredes orgânicas, curvas, feitas de madeira e pedra, portas que teriam feito as delícias do arquitecto catalão Antoni Gaudí. Claro que não podia avançar sem desenhar primeiro, pelo menos, uma das casas.
Regressámos pelo outro lado do rio, deixando os Andes progressivamente para trás e regressando ao terreno plano dessa cidade que continua a crescer no espaço entre as cordilheiras.
quarta-feira, 15 de abril de 2015
Chile: As casas de Pablo Neruda
O Chile é um país de escritores. Quem conhece Pablo Neruda, Gabriela Mistral ou Nicanor Parra não tem dúvidas sobre isso. O que é menos conhecido é que existe um elo inesperado entre o Chile e Portugal, precisamente através desses escritores e do editor que publicou os seus primeiros trabalhos, um português chamado Carlos Nascimento. Quando nasceu na ilha do Corvo e decidiu embarcar num num navio baleeiro a caminho dos Estados Unidos, nada faria esperar que este jovem imigrante português, que chegou a Santiago no início do século XX, viesse a publicar os maiores escritores do país. Foi essa história fascinante que Felipe Reyes, um jornalista chileno, publicou recentemente e na qual conta como, em 1924, Nascimento decidiu publicar e promover o primeiro livro do jovem Pablo Neruda, então com 21 anos. Estreou também recentemente um filme sobre esta vida singular.
Chile vive (hoje) muito bem com os seus escritores. Os herdeiros de Pablo Neruda criaram a Fundação Neruda, que transformou as três principais casas do escritor em pontos de paragem obrigatória, muito bem cuidadas e com excelentes audio-guias para os visitantes. A primeira paragem é "La Chascona", a casa de Neruda em Santiago, construída para viver com a sua terceira mulher, Matilde Urrutia, cujo cabelo rebelde que lhe mereceu a alcunha terna de "A Despenteada", em espanhol, "La Chascona"...
A segunda casa, a que gostei mais, fica em Isla Negra, banhada pelo Oceano Pacífico, na costa ocidental do Chile, a 96km de Santiago e 45km a sul de Valparaíso. É um espaço fascinante, no qual Neruda parece ainda habitar. O mar está presente em tudo, até na mais singular das colecções do escritor: figuras de proa, esculturas em madeira que habitaram em tempos a proa de navios há muito esquecidos.
Concluímos este percurso pelas casas de Neruda em Valparaíso, onde o escritor tinha a sua "La Sebastiana". Não tem o charme único das outras duas, mas não deixa de valer a pena passar por lá e ver como o labirinto urbano de Valparaíso se estende aos pés da casa de Don Pablo. No interior não são permitidas fotografias, mas os vigilantes não pareceram ter nada contra quando eu desenhei o quarto panorâmico do escritor.
Chile vive (hoje) muito bem com os seus escritores. Os herdeiros de Pablo Neruda criaram a Fundação Neruda, que transformou as três principais casas do escritor em pontos de paragem obrigatória, muito bem cuidadas e com excelentes audio-guias para os visitantes. A primeira paragem é "La Chascona", a casa de Neruda em Santiago, construída para viver com a sua terceira mulher, Matilde Urrutia, cujo cabelo rebelde que lhe mereceu a alcunha terna de "A Despenteada", em espanhol, "La Chascona"...
A segunda casa, a que gostei mais, fica em Isla Negra, banhada pelo Oceano Pacífico, na costa ocidental do Chile, a 96km de Santiago e 45km a sul de Valparaíso. É um espaço fascinante, no qual Neruda parece ainda habitar. O mar está presente em tudo, até na mais singular das colecções do escritor: figuras de proa, esculturas em madeira que habitaram em tempos a proa de navios há muito esquecidos.
Concluímos este percurso pelas casas de Neruda em Valparaíso, onde o escritor tinha a sua "La Sebastiana". Não tem o charme único das outras duas, mas não deixa de valer a pena passar por lá e ver como o labirinto urbano de Valparaíso se estende aos pés da casa de Don Pablo. No interior não são permitidas fotografias, mas os vigilantes não pareceram ter nada contra quando eu desenhei o quarto panorâmico do escritor.
terça-feira, 14 de abril de 2015
Chile: Pelos museus de Santiago
A melhor surpresa nos museus de Santiago foi Museu Chileno de Arte Pré-Colombiana. Com uma colecção notável e uma apresentação irrepreensível, é um paragem a não perder na cidade. Não resisti a parar e desenhar a sala de obras-primas, dominada pelo Chaman em primeiro plano e pelo baixo-relevo Maya na parede do fundo.
O Museu Nacional de Belas-Artes, pelo contrário, não impressionou. Talvez não tenha ajudado estar com algumas obras de manutenção, mas a colecção pareceu limitada e a informação pobre. Talvez para compensar, o edifício é magnífico. Trata-se do "Palácio das Belas-Artes", concluído em 1910 para comemorar o primeiro centenário da independência do Chile.
Saindo das Belas-Artes e seguindo o Rio Mapocho, que atravessa a cidade, chegamos ao Mercado Central de Santiago. É um local de passagem obrigatório mas que, precisamente por isso, se tornou demasiado turístico... Não recomendo os restaurantes, mas salva-se o charme do ambiente.
O Museu Nacional de Belas-Artes, pelo contrário, não impressionou. Talvez não tenha ajudado estar com algumas obras de manutenção, mas a colecção pareceu limitada e a informação pobre. Talvez para compensar, o edifício é magnífico. Trata-se do "Palácio das Belas-Artes", concluído em 1910 para comemorar o primeiro centenário da independência do Chile.
Saindo das Belas-Artes e seguindo o Rio Mapocho, que atravessa a cidade, chegamos ao Mercado Central de Santiago. É um local de passagem obrigatório mas que, precisamente por isso, se tornou demasiado turístico... Não recomendo os restaurantes, mas salva-se o charme do ambiente.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
Chile: Recantos de Santiago
Um dos edifícios mais estranhos de Santiago é o Centro Gabriela Mistral. Construído para albergar uma conferência da Organização das Nações Unidas em 1972, foi remodelado recentemente para abrir as portas em 2010 como centro cultural com o nome da escritora chilena que ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1945. Como não estava patente nenhuma exposição que nos chamasse, acabámos por passar algum tempo na excelente livraria do centro, uma das muitas que se encontram em Santiago.
Relativamente perto deste símbolo de modernidade, encontramos a Igreja de São Francisco, a mais antiga da cidade e do país. Construída entre 1575 e 1613, é aqui que se encontra a imagem da Virgem do Socorro que Pedro de Valdívia trouxe consigo quando veio conquistar o território que hoje é o Chile. A igreja merece a visita, embora esteja um pouco degradada. O Museu Colonial que lhe está anexo, pelo contrário, não merece grande atenção. Está num estado deplorável e sem o mínimo de contextualização que permita apreciar as peças que exibe.
Mais afastado do centro da cidade, encontramos Los Dominicos na zona de Las Condes. Atrás da Igreja de São Vicente Ferrer está escondido um fascinante mercado de produtos artesanais, onde um número surpreendentemente grande de artesãos trabalha e vende os seus trabalhos.
Relativamente perto deste símbolo de modernidade, encontramos a Igreja de São Francisco, a mais antiga da cidade e do país. Construída entre 1575 e 1613, é aqui que se encontra a imagem da Virgem do Socorro que Pedro de Valdívia trouxe consigo quando veio conquistar o território que hoje é o Chile. A igreja merece a visita, embora esteja um pouco degradada. O Museu Colonial que lhe está anexo, pelo contrário, não merece grande atenção. Está num estado deplorável e sem o mínimo de contextualização que permita apreciar as peças que exibe.
Mais afastado do centro da cidade, encontramos Los Dominicos na zona de Las Condes. Atrás da Igreja de São Vicente Ferrer está escondido um fascinante mercado de produtos artesanais, onde um número surpreendentemente grande de artesãos trabalha e vende os seus trabalhos.
domingo, 12 de abril de 2015
Chile: Começando a descobrir Santiago
Esta Páscoa tive a oportunidade de passar duas semanas, calmamente, em Santiago, no Chile. Com um caderno novo na bagagem e uma pequena caixa de aguarelas, estava pronto para trazer este novo hábito de desenhar para umas férias em família pela primeira vez. A boa notícia é que, com a paciência de quem me acompanhava, consegui sobreviver! :)
A nossa primeira incursão no centro de Santiago foi numa segunda-feira. Com os museus todos fechados, tivemos que nos contentar em percorrer as ruas da cidade. Começámos, como bons turista, pela Plaza de Armas. O Museu Histórico Nacional, instalado num antigo palácio na praça, é um dos edifícios mais conhecidos da cidade, com o seu amarelo inconfundível.
Muito perto, a Catedral Metropolitana, com a sua arquitectura do século XVIII, é outro ponto de paragem obrigatório. A sua admirável fachada barroca (que é um desafio para desenhar) está a ser restaurada. Do outro lado da rua, ergue-se uma das muitas torres de vidro da cidade, num contraste que se sente em todo o centro da cidade, entre o novo e algum antigo.
Para se absorver a imagem de conjunto da cidade é preciso ganhar alguma distância. O melhor sítio para isso é o Cerro San Cristóbal, na zona da Bellavista. Graças a um funicular, conseguimos subir até ao topo do monte e ver como a cidade imensa se estende até ao sopé dos Andes, que nos dias de boa visibilidade dominam o horizonte com os seus picos gelados. A dimensão da cidade é impressionante e percebe-se que vivem ali, de facto, sete milhões de pessoas...
A nossa primeira incursão no centro de Santiago foi numa segunda-feira. Com os museus todos fechados, tivemos que nos contentar em percorrer as ruas da cidade. Começámos, como bons turista, pela Plaza de Armas. O Museu Histórico Nacional, instalado num antigo palácio na praça, é um dos edifícios mais conhecidos da cidade, com o seu amarelo inconfundível.
Muito perto, a Catedral Metropolitana, com a sua arquitectura do século XVIII, é outro ponto de paragem obrigatório. A sua admirável fachada barroca (que é um desafio para desenhar) está a ser restaurada. Do outro lado da rua, ergue-se uma das muitas torres de vidro da cidade, num contraste que se sente em todo o centro da cidade, entre o novo e algum antigo.
Para se absorver a imagem de conjunto da cidade é preciso ganhar alguma distância. O melhor sítio para isso é o Cerro San Cristóbal, na zona da Bellavista. Graças a um funicular, conseguimos subir até ao topo do monte e ver como a cidade imensa se estende até ao sopé dos Andes, que nos dias de boa visibilidade dominam o horizonte com os seus picos gelados. A dimensão da cidade é impressionante e percebe-se que vivem ali, de facto, sete milhões de pessoas...
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