Nunca encontrei ninguém completamente incapaz de aprender a desenhar.

John Ruskin, intelectual inglês do século XIX


Pensamos que o Diário Gráfico melhora a nossa observação, faz-nos desenhar mais e o compromisso de colaborar num blogue ainda mais acentua esse facto. A única condição para colaborar neste blogue é usar como suporte um caderno, bloco ou objecto semelhante: o Diário Gráfico.


Neste blogue só se publicam desenhos feitos de observação e no sítio

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sexta-feira, 22 de abril de 2016

Jantar Comunitário (da "Serve the City")

Foi uma noite especial.
Acompanhado do Nelson Paciência, do Filipe Pinto e da Jeanne Waltz, fomos ao Jantar Comunitário, o 2º grupo dos Urban Sketchers que foi convidado para registar em desenho este evento .

Trata-se duma iniciativa da Serve The City Portugal que há já 5 anos (!) faz acontecer de 15 em 15 dias estes jantares, que nos transportam para uma realidade paralela. Paralela ao nosso quotidiano, às nossas rotinas, aos nossos mundos e que nem imaginamos existir. E tem 2 faces: de um lado um grupo imenso de voluntários faz um intervalo nas suas vidas, nos seus afazeres e nas suas famílias, e vem ajudar a oferecer uma refeição quente ao outro lado, cerca de 2 centenas das margens da nossa sociedade que, por sua iniciativa, converge nesse dia para esse local, reunindo diferentes tipos de  fragilizados sociais - sem-abrigo, mas também refugiados, pessoas sós ou apenas sem condições para terem uma vida normal - e que o Alfredo da organização chama "os nossos convidados".

E é disso que se trata: os convidados são recebidos com mesa posta com toalha de pano e, enquanto revêem conhecidos, interagem com voluntários, ou simplesmente estão, um corropio de voluntários com jarros de bebida, cestas de pão e pratos com uma cheirosa coxa de frango asseguram o serviço a todas as mesas.

E reconheci então algo que desejava encontrar: normalidade. Aquele momento permite àquelas pessoas reencontrar, mesmo que por alguns instantes, o que para nós é normal. Sentam-se numa mesa, acompanhados, e jantam. E pensei que toda esta dádiva de tantos significa muito para todos eles.

Mas, naquela noite, esta normalidade foi também especial. Fiquei impressionado com o Rafael, um voluntário que vem frequentemente ajudar, acompanhado da sua filha de 4 anos, e que gosta de ficar nas mesas com os convidados. Mas naquela noite fazia anos e a sua festa foi pagar do seu bolso todos aqueles jantares e, ainda, convidou 60 dos seus amigos e colaboradores, que vieram ajudar a oferecer aquele Jantar Comunitário.

E nós pudémos desenhar tudo isto! Eu, como o Filipe, optei por fixar o ambiente, de "fora", enquanto a Jeanne e o Nelson se sentaram nas mesas.




No final, quando os convidados saíram, chega a vez dos voluntários jantarem e nós juntámo-nos a eles e ficámos na mesa do Rafael. Antes de vir embora ainda consegui desenhar o Dacosta, um pintor que o Eduardo Salavisa conheceu, alguns voluntários e a mesa dos cozinheiros.



Garantidamente foi uma noite especial!

(Pena é que, mais uma vez como outras ao longo dos 5 anos, terão que encontrar novo local para os jantares, já que este Refeitório Municipal, em Alcântara, vai ser demolido para dar lugar ao novo hospital da CUF)

terça-feira, 19 de abril de 2016

Jantar Comunitário 13 de Abril

Cheguei adiantada, os voluntários ainda não estavam lá todos. Desenhei a sala vazia, um antigo refeitório da Câmara, que vai ser demolido. Fui interrompida pelo discurso de boas vindas do Alfredo, de que me ficaram 3 frases:
"O objectivo não é matar a fome... Vcs hoje vão servir as pessoas... Tentámos conhecer as pessoas não pelas suas necessidades ( sem abrigo, idoso, etc...) mas apenas pelo seu nome..... "
Entraram os convidados, sentaram-se. E também fui sentar-me, em cadeiras vazias, mudando de mesa depois de cada retrato. Não pensei muito, desenhei caras, ouvi framentos de conversa, pedi desculpa por ser eu tão mã conversadora, mostrei resultados, recebi elogios e olhares de dúvida, como sempre. Depois comemos com alguns voluntários, tinha sobrado muita comida, perguntavam-se o porque da menor assistência, seria mesmo do benfica?






domingo, 17 de abril de 2016

Jantar Save the City

Também fui desenhar o jantar comunitário Save the City. 
Nas palavras do Alfredo, o objectivo deste jantar não é matar a fome às pessoas, mas sim criar um momento de afecto, de atenção e paciência, criar uma ponte onde ela não existe. Os convidados chegam, são acolhidos e encaminhados para uma mesa com toalha de pano, um marcador e uma vela. Depois são servidos pelos voluntários, que nesta noite são empregados de mesa. A dignidade dos convidados é igual à nossa, disse-me mais tarde o Jónatas, voluntário há 3 anos no Serve the City.
Às oito e meia os convidados começam a chegar, nas mesas de oito lugares já estão dois voluntários sentados, que conversam e fazem companhia aos pequenos grupos e pessoas sozinhas que acabam de entrar. Jantam todos ao mesmo tempo.
Deambulei por ali, encantado de fazer parte daquele serão e daquele momento solidário. Sentei-me numa mesa de surdos-mudos, num cantinho, que a mesa estava cheia. Pedi a uma das convidadas, a de lenço colorido na cabeça e que sabia ler nos lábios, se os podia desenhar no meu caderno. Todos disseram que sim. Continuaram animados e muito conversadores, quase sem emitir sons. Ao meu lado, as duas voluntárias Catarina e Bárbara, entravam nas conversas como podiam, a Bárbara, quase arquitecta, pediu-me uma caneta e começou também a desenhar. 
Uma hora, um frango no forno com puré e um gelado depois, terminei o desenho. Sem os interromper, virei o caderno, para que se pudessem ver retratados. A surpresa e contentamento foram indisfarçáveis. Tiraram fotos, fizeram gestos de agradecimento, e tentaram, como podiam, falar comigo. E nesse momento, percebi que o desenho derruba muitas coisas, até as barreiras da linguagem.
Pelas dez horas da noite, os convidados começaram a sair, despedindo-se dos voluntários, e também de mim. Jantámos depois com aquele grupo de gente formidável. Sentei-me ao lado do Rafael, que fazia anos nesse dia, e, num gesto solidário, ofereceu todo aquele jantar.
Fiquei com muita vontade de regressar, e talvez para não desenhar...



Créditos fotográficos: Pedro Marcelino • workmove.net

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Jantar comunitário



 No jantar comunitário organizado pela Serve the City Portugal onde um grupo de voluntários prepara e serve as refeições para os convidados da rua.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Jantar Comunitário

Até o lavar dos cestos (neste caso, loiças) é vindima. E não são apenas os pratos. Há ainda que varrer o chão, arrumar, empilhar mesas e cadeiras... no fim fica tudo impecável.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Jantar Comunitário

Na cozinha também há uma equipa de voluntários. Aliás, sem esta equipa nem haveria jantar nenhum.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Jantar Comunitário - Os convidados

A Ana Rita e o Agostinho são um casal de surdos  que vêm aqui regularmente. Fiquei contente quando, no fim do jantar e já à saída, lhes fui mostrar o desenho e vi que estavam rodeados de outros jovens como eles. Estes amigos, embora se fizessem entender com alguma dificuldade, esforçaram-se por me explicar o que já sabia: que eles eram namorados :)


Jantar Comunitário

A sala é grande e a conversa animada. Ninguém fica sozinho.
Quando chegam novos convivas monta-se mais uma mesa e chegam mais tabuleiros. E mais companhia.

domingo, 3 de abril de 2016

Jantar Comunitário

As tarefas estão distribuídas. Há as equipas que jantam e as equipas que servem.
Os que jantam estão à mesa e a conversa é animada. Os que servem enchem os tabuleiros e levam-nos aos lugares.

Jantar comunitário

 Jantares com convidados de "rua" e um voluntário ou dois. Encontro de pessoas que vivem separadas por linhas invisíveis e que aqui são companheiros de mesa.
 Os voluntários que servem as bebidas, o pão...
Um grupo muito especial que comunicava com linguagem gestual.

Jantar Comunitário - Os Voluntários

Entre convidados e voluntários  chegam a juntar-se na sala cerca de 250 pessoas.
Os voluntários  são os que permitem, com o seu trabalho, que tudo isto aconteça.
Aqui, voluntários atentos, ouvem o briefing que lhes é dado antes de jantar.


 Uma voluntária, espera que alguém se sente à sua mesa. Pode ser um sem-abrigo, um toxicodependente, ou apenas alguém que vive isolado. Parece um pouco ansiosa. De facto, fazer com que alguém se sinta pessoa, nem sempre é tão fácil quanto parece...

  Aqui alguns dos muitos rapazes  que trabalharam  na cozinha no dia em que estivemos presentes




sábado, 2 de abril de 2016

Jantar Comunitário

O JANTAR COMUNITÁRIO é uma festa que acontece duas vezes por mês, com organização e colaboração de várias instituições entre as quais a SERVE THE CITY.
Desta vez também os USkP foram convidados.
Aqui estava-se ainda na fase de instruções aos novos voluntários.

Jantar Comunitário

As pessoas presentes neste jantar comunitário, que vivem na rua ou em situações muito precárias, são, para as outras, como se fossem “invisíveis”. As pessoas passam por eles e olham para o lado, não as querem ver, no fundo não querem ser confrontadas com aquele outro. Alfredo, o responsável pela Associação “Serve the City” convidou-nos para nós, segundo disse, tornámo-los “visíveis”. Para os desenharmos temos que olhar muitas vezes, temos que observar todos os pormenores, as suas expressões, como se vestem, os seus gestos. Serem o objecto, pelo menos durante uns minutos, da nossa (máxima) atenção.




A meio do jantar consegui um lugar numa mesa. Chamou-me a atenção um senhor que abriu uma pasta e mostrava desenhos aos outros companheiros de mesa. O pintor é o Dacosta (nome artístico de Vítor da Costa) com quem conversei sobre os seus recentes êxitos artísticos. Ao meu lado esquerdo estava Tito, que veio de África já adulto e vive em Carcavelos, perto da praia, o sítio mais parecido com o lugar de onde veio. Do lado direito o Luca, geógrafo italiano que está cá a estudar os tremores de terra. O Joaquim estava mais atento à comida e a Sandra era muito simpática. O Rodrigues e o Carlos eram homens calados que só observavam.



No fim do jantar comprei uma pintura ao Dacosta. Intitulada "O delicioso lugar de estar" e que podem ver aqui. O suporte em papel, técnica mista, um abstracto. Para ele é África, a sua origem, com rios, pássaros, o sol a pôr-se, árvores, tudo o que nós quisermos que lá esteja. 

quinta-feira, 31 de março de 2016

Jantar no Serve The City

Explicaram-nos que os jantares no Serve the City são mais do que jantares para sem abrigo. São  um encontro  entre pessoas que vivem separadas por linhas invisíveis na cidade, mas que ali são companheiros de mesa e de vida.
Habituámo-nos  a conhecer os do lado de lá da linha pelas suas necessidades e a evitar olhar para eles; estes jantares, são uma oportunidade de os conhecermos pelo nome, e frente a frente.
Cheguei cedo, e fiquei no carro à espera. Chovia e estava frio, e as pessoas  que iam chegando abrigavam-se debaixo do alpendre, também elas a fazer horas. Cumprimentavam-se, brincavam uns com os outros, mostrando  já conhecer-se senão doutros sítios, pelo menos dali. Alguns porém, mais taciturnos, isolavam-se . Fiz vários desenhos durante a noite. Estes, cá fora, foram os primeiros.