Nunca encontrei ninguém completamente incapaz de aprender a desenhar.

John Ruskin, intelectual inglês do século XIX


Pensamos que o Diário Gráfico melhora a nossa observação, faz-nos desenhar mais e o compromisso de colaborar num blogue ainda mais acentua esse facto. A única condição para colaborar neste blogue é usar como suporte um caderno, bloco ou objecto semelhante: o Diário Gráfico.


Neste blogue só se publicam desenhos feitos de observação e no sítio

Mostrar mensagens com a etiqueta Caderno de Viagem Brasil - 2018. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Caderno de Viagem Brasil - 2018. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Caderno de Viagem Brasil - 2018 - dia III (tarde)

20.05.2018  parte da tarde

Depois de uma manhã intensa seguimos para a cidade, mais precisamente para junto do Teatro Municipal, uma obra de arquitetura brutalista, da autoria dos arquitetos Arnaldo Palamone Lepre e Francisco Santoro, construído em 1977. O edifício encontra-se em obras de reabilitação e apesar do estado de degradação, continua bastante desenhável. 
Depois da habitual voltinha de contemplação, eis que dá inicio o Workshop orientado pelo Pedro Alves.



No final, enquanto organizavam a habitual partilha de desenhos e foto de grupo, aproveitei para registar esta lanchonete ambulante, a "Bokita".

Seguimos para o Drink & Draw no espaço Cris, com um belo momento musical. Bossa nova ao vivo é outra coisa. O registo que se segue resulta de um "desenho cego". 

No final, uma nova surpresa, o reencontro com o Alex Lima, que em 2017 esteve em Torres Vedras fazendo parte do Coletivo Brasil.


quinta-feira, 7 de junho de 2018

Caderno de Viagem Brasil - 2018 - dia III (manhã)

20.05.2018
 
2º dia do Encontro Internacional de Desenho de Rua
O 1º workshop foi orientado por mim e o local escolhido não podia ter sido melhor - o Assentamento Bela Vista.
 
O desafio passava por criar composições gráficas que conciliassem desenho e escrita. Trazer nos cadernos pedaços da história daquele lugar e da sua comunidade.
 
 
O casarão do Assentamento é uma peça única com uma carga emotiva muito forte. Enquanto fazia este desenho, ouvia a história que a nossa anfitriã, a Silvani, contava. Dos escravos, aos sem-terra, uma vida dura, de muito trabalho, muita pobreza, onde os direitos humanos nem sequer eram conhecidos. Silvano terminou a sua apresentação em lágrimas, explicando que para além da emoção de reviver a história dramática desta comunidade, estava emocionada por haver um grupo de pessoas que se interessou pelo Assentamento para conhecer a história dos "esquecidos" escravos e dos sem-terra, para conhecer as casas simples, as ruas de terra e lamacentas, pois "normalmente as pessoas vêm cá para conhecer a história do poderoso dono das terras, a história da família e do casarão, dos negócios e da política e esquecem-se do essencial - os escravos e os sem-terra que muito sofreram nas mãos dos senhores". (Silvani)
 
 
 
Apesar da abolição à escravatura ter acontecido no ano de 1888, muitas destas fazendas do interior, onde a fiscalização era escassa, os poderosos senhores, os famosos coronéis conseguiram ludibriar a lei e prolongar a escravatura até ao inicio do séc. XX.
 
Instalou-se um silêncio ensurdecedor. Ganhamos coragem para mais uns desenhos, seguindo-se a capela de São Judas Tadeu. Uma pequena e modesta capela. Iniciei o desenho quase no final da cerimónia. Ainda ia nos primeiros traços e as pessoas que saem da missa veem falar comigo, para saber que encantos nós tínhamos encontrado naquele lugar. Digamos que saiu um desenho cego (muita conversa). Do lado direito, tentei registar uma das casas do assentamento. Fui atraído por uma dupla bem simpática que se divertia a desmontar/montar uma mota. Fizemos uma aposta entre os 3 - quantas peças vão sobrar no final?
No final do desenho surge a D. Noémia, que vive na casa e é mãe de um dos "mecânicos". Tem 70 anos e vive no assentamento há 50 anos. É viúva e com ela vive o seu filho Marco (agricultor de semana e "mecânico" de vez em quando).
 
 
Depois de registar mais umas casas, eis que reencontro a D. Noémia e o seu filho. "Moço, a vida aqui é muito dura, temos pouca coisa, mas não queremos sair daqui não. Somos muito felizes."
Falei com outras pessoas e todas elas disseram o mesmo.