Nunca encontrei ninguém completamente incapaz de aprender a desenhar.

John Ruskin, intelectual inglês do século XIX


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quarta-feira, 15 de junho de 2016

Fim-de-semana grande em Santa Luzia

Há algum tempo que ansiava por este fim-de-semana de quatro dias... por a calmaria de Santa Luzia, ainda livre dos enxames de Agosto, pelos primeiros mergulhos na Praia do Barril, na Fábrica em Cacela-Velha, na Terra Estreita... as noites de havaiana no pé, a caminhar junto à ria... a sentir que o mundo ficou lá para trás, que ali é quase o espaço, que ali é sonho que embala como os barcos que flutuam lentos e leves na beira mar... com tanta lanzeira, com tanto calor e com tanto para viver que por vezes tem mesmo de ser vivo em suspenso, só com a respiração e sem movimento, acabei por não desenhar tanto quanto a quantidade de material que levei deixava adivinhar. Mas aqui ficam os registos feitos, todos eles na praia, sobretudo da fauna vinda da urbe que como eu, por estes quatro dias, se suspendeu e ousou respirar um pouco mais pausada e profundamente.


Este foi o primeiro registo, feito na Fábrica, a fantástica praia de Cacela-Velha. Comecei este tipo do chapéu só com mancha, não estava a começar mal embora me sinta algo na corda-bamba sem a linha. À medida que o chapéu verde me ía de mal a pior que a dormência da minha perna, lá recorri à linha grossa e solúvel da minha caneta Lamy. Estava a avançar para aquela fase em que o desenho cai aos trambolhões por ali a baixo e já só desejo que chegue ao fim enquanto consigo controlar a vontade de incendiar o caderno. Enfim, lá se arrastou até ao fim. Não foi particularmente feliz, mas às vezes os primeiros desenhos são assim, tão desejados foram na sofreguidão de quem finalmente não sentia o tempo contado, que de tão pressionados acabam por frustrar



 Finalmente lá me soltei, decidi aceitar que a pose não iria ser a melhor, que a areia ía povoar a minha caixa de aguarelas, passear pelo papel, que a sombra do chapéu iria perder a luta com o calor e que tudo isto iria levar a uma linha torta. E que maravilha quando se consegue não tentar, quando se consegue simplesmente desenhar e desenhar e se aceita tudo o que vai surgindo no papel. Quando uma pose não dura mais que 5 segundos e resta-nos a impressão que nos deixou, quando se começa um corpo sem saber se irá ou não caber no papel e quando até gostamos quando não cabe. No desenho, como na vida, sabe tão bem quando conseguimos deixar fluir como estas linhas fluíram. Gostei destas duas páginas, porque me diverti, porque as figuras iam acontecendo e eu nem sabia bem se eu as desenhava ou se a caneta se mexia sem me avisar, porque quando aceitei a areia na aguarela percebi que, depois da água secar, me emprestava uma textura engraçada, mesmo todo enrolado o corpo não me doeu, e mesmo suado o calor não incomodou.


Nos dois dias seguintes, na Praia do Barril e na Terra-Estreita, o calor foi ainda maior, o tempo na água também e diminuíram os registos. No entanto, mantive o mesmo espírito solto e relaxado, procurando apenas captar as impressões, sem grandes preocupações, deixando-me ir.

7 comentários:

Rosário disse...

Estes sítios são maravilhosos e os desenhos assim o dizem!

USkP Convidado disse...

é tão cómico ver as poses das pessoas na praia se as isolarmos do contexto :)
o último apontamento do casal com o senhor vermelho como um camarão está demais :)
-marco-

Teresa Ruivo disse...

Só mesmo com esse espírito é que os desenhos saiem tão bem!

hfm disse...

Gosto. Muito.

Vicente disse...

Os teus desenhos cada vez estão melhores. Adoro.

nelson paciencia disse...

Super desenhos pá!

João Santos disse...

Obrigado a todos :D