Nunca encontrei ninguém completamente incapaz de aprender a desenhar.

John Ruskin, intelectual inglês do século XIX


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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Türk Postallar vol 07: Taksim revisitada

Souvenir de Istambul, com os cumprimentos do Tio Sam (mas poderiam ser cumprimentos de uma qualquer indústria militar Brasileira, pois este país também vendeu bastante armamento não-letal (dizem eles) à Turquia.
Uma pessoa nem sabe por onde começar: são tantas histórias que é difícil escolher. Uma coisa é certa, nos dias que correm a Turquia é um local perigoso para quem fura o cerco montado à informação, quer sejam utilizadores de redes sociais, quer serjam canais televisivos nacionais ou estrangeiros. Hoje mesmo uma boa dose de canais televisivos foram intimados judicialmente por terem feito a cobertura da carga policial de ontem (podem ler a notícia aqui). A justificação? Ser exposto às imagens transmitidas pelas televisões afecta o desenvolvimento das crianças e da juventude. Há poucas horas dois jornalistas Canadianos foram detidos. Isto a juntar às dezenas de detidos por alegadamente difundir incitações à violência.

Pairando sobre tudo isto, o Primeiro-ministro continua a sua maratona de discursos divisivos. À chegada do périplo pelo Norte de África foi recebido por uma multidão no aeroporto de Istambul que entre outras coisas gritava: "Vamos a eles, vamos esmagá-los!". A mesma cena repetiu-se em Ancara, com Recep Tayyip Erdoğan a inflamar ainda mais os ânimos. Conto-vos apenas uma hitória: num dos dias de confrontos frente ao Palácio de Dolmabahçe, os manifestantes refugiaram-se na mesquita mais próxima. Neste local socorreram quem necessitasse de auxílio médico, ou refúgio das toneladas de gás despejadas. O Primeiro-ministro, nos seus discursos, disse que os manifestantes entraram calçados, a beber cerveja. Que insultaram senhoras cobertas com véu, e com isto insultaram a sua mulher e filha. Estas palavras foram categoricamente desmentidas pelo imã da mesquita de Dolmabahçe e pelo muezzin. Parece não haver limites no populismo do Primeiro-ministro, que não hesita em recorrer a mentiras e alimentar ódios religiosos para levar a sua avante. Disseram-me hoje, não sei se é verdade se não, que o imã "foi de férias". Erdoğan disse que o muezzin quando falou estava condicionado pelos manifestantes. Acredite quem quiser.

Ainda nos rumores de rua, alguém me disse hoje que a razão da teimosia da construção do quartel Otomano em Gezi se prende com uma promessa feita a um sheik de que ali se faria um centro comercial. Outros apontam que ou a construção do centro ou a gerência das lojas estariam ligadas a familiares do Primeiro-ministro. São rumores de rua, valem o que valem, ou seja nada até que alguém se chegue à frente com provas concretas, se as houver. O que é certo é que por agora, o parque resiste. Até quando, não se sabe.

Ontem o dia foi bastante confuso. A manhã começou com forte aparato policial, supostamente para limpar as bandeiras na estátua da Repúlica e no Centro Cultural Atatürk, bem como com marcada presença dos média em Taksim— o que é de estranhar devido à fraquíssima cobertura dos mesmos até então. Curiosamente ontem também surgiram protestantes com cocktails-molotov— até então não se tinha visto em Taksim tal coisa. Igualmente interessante observar como a polícia tolerou a presença de um punhado de agitadores, permitindo o lançamento de múltiplos projécteis mesmo frente às câmaras. Os infames veículos TOMA, tão lestos a varrer manifestantes nos dias anteriores, agora dir-se-ia que esguichavam a meio-gás. Note-se que, quando às 20:15 carregou sobre uma praça com milhares de protestantes, a esvaziou em minutos recorrendo uma vez mais a demasiado gás-lacrimogénio (podem ver algumas imagens aqui). Os lançadores de projécteis tiveram muito mais tempo de antena perante as câmaras. Diz-se nos meios sociais que seriam ou polícias disfarçados ou apoiantes do governo. Este vídeo parece confirmar esta tese, onde se vê um deles a chamar o blindado TOMA (podem ver o vídeo aqui).

O governador de Istambul ontem prometera que a polícia não entraria em Gezi. Mas às 14:00 lá estava a polícia de choque a pôr o pézinho no parque. E isto um dia antes das anúnciadas reuniões entre o Primeiro-ministro e representantes dos manifestantes (que ocorreu hoje e teve tudo, muita gente do espetáculo e artes, faltaram apenas os representantes dos manifestantes). Quebrada qualquer relação de confiança entre governantes e protestantes, o impasse mantém-se.

E vem aí o fim-de-semana, onde estão já marcadas manifestações pró-governo, cuja finalidade será 'limpar as ruas' e eventualmente a tentativa de cumprir as declarações proferidas à chegada de Erdoğan: "Vamos esmagá-los!". Muita tensão no ar, e o que alguns acreditam ser um clima de pré-guerra civíl.  O Primeiro-ministro afirmou hoje que tudo estará concluído nas próximas vinte e quatro horas. Será assim? Não sei, mas p
enso que se vão assitir a coisas muito feias nos próximos dias.

4 comentários:

Manuela Rosa disse...

PeF,
os teus relatos são impressionantes.Votos de que tudo corra pelo melhor, que as tuas expetativas não se concretizem e que a calma posssa vir a surgir - apesar de tudo e desses governantes indecentes.Um abraço

J.Espadaneira disse...

Parabéns por estes relatos, certamente que quem segue os desenvolvimentos por aqui se sente privilegiado.

Maria Celeste disse...

...bons relatos...
Desejo ,vivamente,que as coisas melhorem...
.

PeF disse...

Muito obrigado a todos. As coisas estão a convergir para um Domingo muito feio— oxalá esteja errado, mas é bem possível que amanhã Taksim seja engolida numa verdadeira batalha campal entre manifestantes anti-governo e manifestantes pró-governo com o auxílio da polícia.