Uma pessoa nem sabe por onde começar: são tantas histórias que é difícil escolher. Uma coisa é certa, nos dias que correm a Turquia é um local perigoso para quem fura o cerco montado à informação, quer sejam utilizadores de redes sociais, quer serjam canais televisivos nacionais ou estrangeiros. Hoje mesmo uma boa dose de canais televisivos foram intimados judicialmente por terem feito a cobertura da carga policial de ontem (podem ler a notícia aqui). A justificação? Ser exposto às imagens transmitidas pelas televisões afecta o desenvolvimento das crianças e da juventude. Há poucas horas dois jornalistas Canadianos foram detidos. Isto a juntar às dezenas de detidos por alegadamente difundir incitações à violência.
Pairando sobre tudo isto, o Primeiro-ministro continua a sua maratona de discursos divisivos. À chegada do périplo pelo Norte de África foi recebido por uma multidão no aeroporto de Istambul que entre outras coisas gritava: "Vamos a eles, vamos esmagá-los!". A mesma cena repetiu-se em Ancara, com Recep Tayyip Erdoğan a inflamar ainda mais os ânimos. Conto-vos apenas uma hitória: num dos dias de confrontos frente ao Palácio de Dolmabahçe, os manifestantes refugiaram-se na mesquita mais próxima. Neste local socorreram quem necessitasse de auxílio médico, ou refúgio das toneladas de gás despejadas. O Primeiro-ministro, nos seus discursos, disse que os manifestantes entraram calçados, a beber cerveja. Que insultaram senhoras cobertas com véu, e com isto insultaram a sua mulher e filha. Estas palavras foram categoricamente desmentidas pelo imã da mesquita de Dolmabahçe e pelo muezzin. Parece não haver limites no populismo do Primeiro-ministro, que não hesita em recorrer a mentiras e alimentar ódios religiosos para levar a sua avante. Disseram-me hoje, não sei se é verdade se não, que o imã "foi de férias". Erdoğan disse que o muezzin quando falou estava condicionado pelos manifestantes. Acredite quem quiser.
Ainda nos rumores de rua, alguém me disse hoje que a razão da teimosia da construção do quartel Otomano em Gezi se prende com uma promessa feita a um sheik de que ali se faria um centro comercial. Outros apontam que ou a construção do centro ou a gerência das lojas estariam ligadas a familiares do Primeiro-ministro. São rumores de rua, valem o que valem, ou seja nada até que alguém se chegue à frente com provas concretas, se as houver. O que é certo é que por agora, o parque resiste. Até quando, não se sabe.
Ontem o dia foi bastante confuso. A manhã começou com forte aparato policial, supostamente para limpar as bandeiras na estátua da Repúlica e no Centro Cultural Atatürk, bem como com marcada presença dos média em Taksim— o que é de estranhar devido à fraquíssima cobertura dos mesmos até então. Curiosamente ontem também surgiram protestantes com cocktails-molotov— até então não se tinha visto em Taksim tal coisa. Igualmente interessante observar como a polícia tolerou a presença de um punhado de agitadores, permitindo o lançamento de múltiplos projécteis mesmo frente às câmaras. Os infames veículos TOMA, tão lestos a varrer manifestantes nos dias anteriores, agora dir-se-ia que esguichavam a meio-gás. Note-se que, quando às 20:15 carregou sobre uma praça com milhares de protestantes, a esvaziou em minutos recorrendo uma vez mais a demasiado gás-lacrimogénio (podem ver algumas imagens aqui). Os lançadores de projécteis tiveram muito mais tempo de antena perante as câmaras. Diz-se nos meios sociais que seriam ou polícias disfarçados ou apoiantes do governo. Este vídeo parece confirmar esta tese, onde se vê um deles a chamar o blindado TOMA (podem ver o vídeo aqui).
O governador de Istambul ontem prometera que a polícia não entraria em Gezi. Mas às 14:00 lá estava a polícia de choque a pôr o pézinho no parque. E isto um dia antes das anúnciadas reuniões entre o Primeiro-ministro e representantes dos manifestantes (que ocorreu hoje e teve tudo, muita gente do espetáculo e artes, faltaram apenas os representantes dos manifestantes). Quebrada qualquer relação de confiança entre governantes e protestantes, o impasse mantém-se.
O governador de Istambul ontem prometera que a polícia não entraria em Gezi. Mas às 14:00 lá estava a polícia de choque a pôr o pézinho no parque. E isto um dia antes das anúnciadas reuniões entre o Primeiro-ministro e representantes dos manifestantes (que ocorreu hoje e teve tudo, muita gente do espetáculo e artes, faltaram apenas os representantes dos manifestantes). Quebrada qualquer relação de confiança entre governantes e protestantes, o impasse mantém-se.
E vem aí o fim-de-semana, onde estão já marcadas manifestações pró-governo, cuja finalidade será 'limpar as ruas' e eventualmente a tentativa de cumprir as declarações proferidas à chegada de Erdoğan: "Vamos esmagá-los!". Muita tensão no ar, e o que alguns acreditam ser um clima de pré-guerra civíl. O Primeiro-ministro afirmou hoje que tudo estará concluído nas próximas vinte e quatro horas. Será assim? Não sei, mas penso que se vão assitir a coisas muito feias nos próximos dias.

4 comentários:
PeF,
os teus relatos são impressionantes.Votos de que tudo corra pelo melhor, que as tuas expetativas não se concretizem e que a calma posssa vir a surgir - apesar de tudo e desses governantes indecentes.Um abraço
Parabéns por estes relatos, certamente que quem segue os desenvolvimentos por aqui se sente privilegiado.
...bons relatos...
Desejo ,vivamente,que as coisas melhorem...
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Muito obrigado a todos. As coisas estão a convergir para um Domingo muito feio— oxalá esteja errado, mas é bem possível que amanhã Taksim seja engolida numa verdadeira batalha campal entre manifestantes anti-governo e manifestantes pró-governo com o auxílio da polícia.
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