No momento em que escrevo, a sitação é a seguinte: Gezi continua local de protesto pacífico, a polícia cerca a estátua da República no centro de Taksim e mantém um enorme dispositivo policial em torno da praça, disperso pelas ruas e ruelas limítrofes. Os jornais divulgam que só em Istambul foram utilizados cento e cinquenta mil projécteis de gases lacrimogénio e pimenta, bem como três mil toneladas de água (neste vídeo é bem visível o absurdo de gás lançado sobre os manifestantes, atente-se no som de cartuchos a ser disparados durante todo o vídeo— gás esse que não só afecta os protestantes como se pode ver aqui). O número de mortos ascende a quatro, o de feridos a vários milhares. Nas redes sociais corre a informação que o governo está a proceder a retaliações sobre os médicos voluntários que têm tentado socorrer as vítimas da repressão policial. As vinte e quatro horas de ultimato do Primeiro-ministro foram substituídas por um encontro surpresa com representantes da Plataforma Taksim Solidarity que durou até ao início da madrugada de hoje, e desta reunião resultou para já a garantia por parte do governo de respeitar a ordem judicial para manter Gezi intocado, enquanto decorrem os recursos na justiça para revogar esta decisão. Primeiro-ministro e Presidente da Câmara de Istambul discursam sobre a necessidade de acabar com a ocupação de Gezi, que, de acordo com eles, veda o acesso ao parte de parte da população. Vive-se para já um período de alguma acalmia, temperado pelas fortes chuvadas que se abateram sobre Istambul esta manhã.
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| Concerto de Saz no Parque Gezi— havia bastante mais gente, eu é que entretanto fui interrompido por alguns pedidos para desenhar retratos e não consegui completar o desenho |
Mas o que aqui gostava de deixar escrito são os exemplos de decência de civilidade dos manifestantes de Gezi, que têm sido um brilhante contraponto à desproporção de violência sobre eles exercida (um relato de uma detenção pode ser lido aqui). Anteontem um polícia de intervenção foi atingido por um pedaço de madeira que caiu do Centro Cultural Atatürk (podem ler a notícia aqui). Os primeiros socorros foram prestados pelos manifestantes, os mesmos que têm sido espancados e gaseados, e apelidados de rufias. Ao apelo do Presidente da Câmara para que as mães retirassem os seus filhos de Gezi, as mães acorreram. E fizeram de braço dado um cordão humano em torno do parque, dando o seu apoio aos seus filhos que ali mantêm o protesto pacífico há quase vinte dias (um artigo noticiando isso mesmo aqui). Ontem Taksim encheu-se pela segunda noite para assistir a um concerto de
piano de Davide Martello, que se associou ao protesto e tocou até ao
raiar do dia (aqui uma mostra).No parque continua o enorme espírito de entreajuda e voluntarismo que tem acompanhado, quer na organização da resistência pacífica, quer na limpeza do local e zonas circundantes. O governo tem-se esforçado para passar uma imagem negativa dos manifestantes, frequentemente apelidando-os de terroristas, culpabilizando-os por um decréscimo do número de turistas em Istambul, por prejuízos causados no comércio local e por denegrirem a imagem externa da Turquia.
Sobre esta última frase, tenho a acrescentar um reparo. Do que tenho visto, os manifestantes, o seu protesto pacífico e o seu civismo são sem dúvida dos melhores cartões de visita para este país.


3 comentários:
...a melodia e a postura das pessoas que cantam falam por si...
É comovente e impressionante ao mesmo tempo. A violência da repressão tem sido desmedida, e ainda assim os manifestantes não arredam pé.
Fantástico este coro e comovente neste sítio!
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