Nunca encontrei ninguém completamente incapaz de aprender a desenhar.

John Ruskin, intelectual inglês do século XIX


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quarta-feira, 5 de junho de 2013

Türk Postallar vol 06: Ve şimdi?

E os dias correm. Taksim continua barricada e transformada em local de permanente comício, e sem presença policial visível (excepto os eventuais polícias à paisana, que os há em bom número). Mais a baixo, junto ao Bósforo e ao Palácio de Dolmabahçe, os manifestantes regressam a cada noite para novos protestos e confrontos. A zona de Gümüşsuyu apresenta um dispositivo impressionante de cerca de dez barricadas, impedindo o acesso automóvel entre o estádio do Beşiktaş e Taksim.

Uma das muitas barricadas em Gümüşsuyu, entre Taksim e Beşiktaş. Enquanto a desenhava,
um jovem trepou ao carro e pousou para a fotografia, fechando a tampa do caixote do lixo.
Quando passou por mim, reparou que no desenho a tampa estava aberta. Voltou atrás e abriu-a.

Nesta mesma zona, enquanto estive a desenhar uma barricada cerca de uma hora, um exército de jovens voluntários metia mãos à obra e, munidos de luvas de borracha e sacos, apanhavam minuciosamente todo o lixo da rua numa enorme mostra de civismo. Só assim estas zonas barricadas têm conseguido manter-se limpas, uma vez que os camiões do lixo obviamente não passam as barreiras construídas pelos manifestantes. Pensei no dono do veículo que me detive a desenhar— ninguém gostaria de ver o seu carro embutido numa barreira, ou ardido ou escavacado. É lamentável.

No mesmo dia em que o Vice-primeiro-ministro apresentava um pedido de desculpas limitado sobre a actuação policial, que teria tido um efeito bem vincado se fosse apresentado pelo Primeiro-ministro, a polícia deteve cerca de 25 utilizadores do Twitter por difundirem alegadas mentiras sobre o Primeiro-ministro. Uma no cravo outra na ferradura, fala-se em acalmar ânimos ao mesmo tempo em que se começa o ajuste de contas com as redes sociais, que tiveram um papel sem paralelo na mobilização dos manifestante e na denúncia dos abusos policiais destes últimos dias. Aguarda-se agora a chegada do Primeiro-ministro para perceber que rumo tomarão as coisas. O Presidente Gül tem-se distanciado do executivo governamental, e acena com um hipotético chumbo na polémica lei sobre venda de álcool caso encontre inconstitucionalidades na mesma. Para já está em vigor uma greve de dois dias de parte dos funcionários da função pública, solidários com os manifestantes e manifestando-se contra a repressão da polícia.

E assim estamos. Como dizia uma manifestante outro dia: "Tudo pode acontecer".

3 comentários:

Henrique Vogado disse...

Vou acompanhando a excelente reportagem. Há um mês uma amiga esteve em Istambul e mostrou-me fotos da Praça Taksim que agora está bem diferente por estes dias.
Continuamos na expectativa de mais notícias.

Suzana disse...

Que interessante esse pormenor da preocupação em abrir a tampa, demonstra respeito pelo trabalho do desenhador

PeF disse...

Henrique: muito obrigado. Sempre que possível vou colocando alguns desenhos e alguns relatos.

Suzana: é verdade. Ainda hoje, quando desenhava o pinguim, uma manifestante tinha ido tirar uma foto ao lado do mesmo acabando por movê-lo de onde estava. Quando reparou que estava a desenhar, pediu muitas desculpas e tornou a repor o modelo onde estava.