Nunca encontrei ninguém completamente incapaz de aprender a desenhar.

John Ruskin, intelectual inglês do século XIX


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terça-feira, 21 de maio de 2013

Türk Postallar vol 02: Três de (Şanlı)Urfa


A cerca de 50km da carnificina que grassa por terras Sírias, Urfa (ou Şanlıurfa, se assim o preferirem) parece passar ao lado do conflito. Parece— mas que conclusões de turista acidental terão a mínima relevância para o que quer que seja? Mas voltemos a Urfa (ou Şanlıurfa, lá está, parece que os nativos a páginas tantas acharam que Urfa não bastava, e toca de aditivar o nome do burgo com o termo şanlı, ou gloriosa), um dos berços da civilização plantado em pleno Crescente Fértil. E, até ver, berço da religião, com o mais antigo templo conhecido: Göbekli Tepe Razões de sobra para uma visita.


Göbekli Tepe, gravuras de Grous (e Avestruzes?), antes de uma valente bátega

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Urfa (ou, não sei se terei referido já, Şanlıurfa) tem História para dar e vender. É no que dá ser cidade que vem lançadíssima lá do princípio dos tempos (históricos). Diz que é terra de profetas, que foi ali que Abrão escapou por milagre à fogueira: do braseiro fez-se lago e assim nasceu o Balıklı Göl (ou Lago dos Peixes). Diz também que foi aqui que Deus se entreteve um pedacinho a atormentar, ou melhor dizendo, a deixar atormentar Job. Outros tempos. Mas para lá do reboliço de bazares e Renaults 12 brancos, Urfa (ou Şanlıurfa, fica ao critério do leitor), desenrola-se um labiríntico emaranhado de ruas e ruelas onde flui Árabe, Curdo e Turco. E se Dorothy confidenciava a Toto que lhe parecia já não estar no Kansas, a mim palpitava-me que já não estava na Turquia que (mal) conheço.

Fonte junto a uma mesquita, desenhada sob olhar atento de Ahmet, o Sírio

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Urfa (que muito antes de ser sequer Şanlıurfa foi Edessa), mais parece um queijo suiço. Ele é cavernas e cavernitas por toda e qualquer encosta. Gente dada ao trogloditismo já antes de Alexandre, o Grande, por ali ter passado. Gente dada que após a sua passagem, continuou a apostar nesta modalidade urbanística. E foi numa encosta esventrada, com escombros por todo o lado depois de uma expropriação à la Turka (que são de arrepiar, como foi no caso das evacuações em Tarlabaşı) que numa das muitas grutas a céu aberto entrámos numa necrópole Grega, com relevos talhados no calcário macio. E lixarada, como não podia deixar de ser. Ainda fomos convidados pelos donos de uma garagem mesmo ao lado a visitar a caverna deles, à qual se acedia pelas traseiras. Um grande painel de mosaicos, diziam-nos os mecânicos, mesmo no fundo da gruta. Ainda pusemos um pézinho nas escadas que desapareciam no breu, mas os escombros, o punjente cheiro a mijo e lixo e o facto de não se ver ponta de um corno levaram-nos a diplomaticamente declinar o convite. "Sabe como é, gostávamos, mas falta-nos lanterna..." Porque estas coisas, todos sabemos como começam, mas ninguém sabe como elas acabam...


Relevo Grego de um Centauro-hipocampo, durante saraivada grossa

7 comentários:

nelson paciencia disse...

Urfa, que desenhos porreiros!

Suzana disse...

Que documentação fantástica, belos desenhos!

Maria Celeste disse...

...bela forma de aprender...

L.Frasco disse...

Grandes desenhos! E bem contextualizados pelas palavras.

PeF disse...

Muito obrigado pelos comentários. A quem lá possa deslocar-se, recomendo vivamente. E além de tudo o que foi escrito, os kebabs em Urfa são de trás da orelha.

Anónimo disse...

Desenhos fora de série. Parabéns por ter tanto talento.

PeF disse...

Muito obrigado, Helena.