Nunca encontrei ninguém completamente incapaz de aprender a desenhar.

John Ruskin, intelectual inglês do século XIX


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sábado, 5 de agosto de 2017

Chicago - dias 4, 5 e 6

Ser um dos trinta e seis instrutores do simpósio, era algo a que ainda me estava a tentar habituar, mesmo depois de chegar a Chicago. Entendi nesse momento que ia mesmo acontecer, senti então um enorme peso e responsabilidade a carregar os meus ombros para baixo, com muita força. Tantas vezes me questionava como foi possível, de entre quase cem candidatos, a minha proposta de workshop ser escolhida e eu fazer parte daquela extraordinária selecção de instrutores? Mas foi, e tal como os restantes, apesar de principiante e com pouca experiência de formação, pus mãos à obra e tentei preparar um workshop que se revelasse como uma experiência, tentando transportar cada um dos meus formandos para algo que me acompanha sempre que desenho: a vontade de contar estórias, de desenhar emoções e mostrar que estava lá.

Para o meu workshop "Follow your Senses", Segue os teus Sentidos, preparei um handout, uma espécie de caderninho explicativo do workshop,  tinha copiado a ideia de outros instrutores e outros simpósios. Fui fazer o reconhecimento do local no dia seguinte a chegar a Chicago, e saí convencido que tudo iria correr bem. O local escolhido era a lindíssima Holy Name Cathedral, onde iríamos fazer três exercícios:

1 - Observar com muita atenção a fachada, e durante quinze minutos tirar notas como se depois precisássemos descrever o edifício a uma pessoa cega. Após esses quinze minutos, todos deveriam voltar costas e desenhar a fachada de memória, em trinta minutos e apenas com o auxílio das notas.
2 - Já dentro da catedral, e ao som do magnífico órgão, desenhar durante quarenta e cinco minutos , numa altura em que ainda ninguém se encontrava no seu interior. Objectivo: entender um lugar sem a presença de pessoas e passar isso para o desenho.
3 - Ao meio dia e quinze começava a missa, com várias dezenas de pessoas nos bancos da frente. O objectivo: desenhar o lugar e as pessoas, captando a essência do momento, escutando, observando pessoas e comportamentos, escrevendo e colocando tudo isso no desenho.

Ainda no trajecto até à catedral, fui conhecendo o meu primeiro grupo, fizemos apresentações e quase imediatamente percebi, salvo duas excepções (e que excepções!), que os restantes eram iniciados no urban sketching, alguns há apenas dois/ três meses, e sem hábitos regulares de desenho, e para os quais percebi que um workshop mais conceptual talvez não funcionasse. Depois, e isso foi algo que aceitei sem reservas, senti que alguns deles não se sentiram bem a desenhar dentro de uma igreja. A diferença cultural tem por vezes impacto nos resultados, e aqui isso aconteceu. Fui tentando ajustar as coisas ao longo das três horas do workshop, achei que o resultado foi, apesar de tudo, positivo, mas regressei a pensar também que precisava de imediatamente rever o meu local do workshop e possivelmente ajustar  os exercícios para um grupo heterogéneo como o do primeiro dia.


No segundo dia decidi escolher a Chicago Public Library, onde ao meio dia, e para o último exercício tivemos a felicidade de assistir a um concerto de piano. Para quem tinha vindo algo desanimado da experiência do dia anterior, o grupo da sexta feira revelou ser estupendo. Enorme comprometimento, vontade de experimentar e ser posto à prova, talento e, claro, óptimos resultados!



Saí de coração cheio desta manhã de sexta feira, pelos resultados e pelo feedback muito positivo dos participantes, senti que este edifício funcionava perfeitamente para o workshop a que me propus. Infelizmente no dia seguinte, Sábado, a biblioteca estaria encerrada, e voltei a ter que escolher uma nova localização...

O último workshop, no Sábado de manhã, foi no Chicago Cultural Center, um magnífico edifício bem junto à Michigan Avenue, e onde, uma vez mais, fomos presenteados com um espectáculo de dança contemporânea, que funcionou na perfeição para o terceiro exercício. Uma vez mais, os resultados do grupo foram óptimos e o retorno dos participantes muito reconfortante.


Passava agora pouco da uma da tarde, a minha primeira participação enquanto instrutor de um simpósio estava a chegar ao fim. Sentia-me aliviado. Enquanto caminhava pela Michigan Avenue, em direcção ao HUB (o quartel general do simpósio), fui fazendo o balanço daqueles dias e daquela experiência. Cheguei à conclusão que foi extraordinariamente duro e que o grau de exigência é de facto muito grande. Sofri mais do que desfrutei, e que a experiência para situações destas só se consegue alcançar com tentativas e erros, como aqueles que me aconteceram, e que tentei, espero que com algum sucesso, corrigir no momento. Mas que valeu a pena! E apesar de tudo, que foi indescritível a sensação de ter feito parte deste extraordinário simpósio em Chicago, o privilégio de ter sido instrutor, ensinando mas principalmente aprender tanto, com todos os que se cruzaram comigo. Obrigado!

7 comentários:

Pedro Ribeiro disse...

Espectacular Nelson!
Os meus parabéns!

André Duarte Baptista disse...

Fantástico post. Parabéns pela representação e por todas as conquistas, sobretudo pelo encontro de 2018 no Porto. obrigado

Rita Catita Afonso disse...

Que desenhos espectaculares! Queremos o teu workshop em território nacional.

Procópio António disse...

Pela tua descrição demonstraste estar atento. Não ficaste preso a um caminho. Adaptaste-te, seguiste a intuição e foste em frente. Podes ter a certeza que és um excelente formador. A temática que escolheste é genial.
Agora queremos-te cá também. Muitos Parabéns pela formação e por nos teres representando tão bem. Obrigado!

Rodrigo Briote disse...

O 2º desenho está incrível

Bruno Vieira disse...

Sempre com um olhar muito particular, balanço muito positivo na formação, a pratica faz o mestre. E que desenhos!

Sara Simões disse...

Obrigado pela partilha da experiência de formação. Gostei muito de saber acerca das tuas expectativas, medos, dúvidas e sobretudo acerca da tua sensibilidade para a necessidade de adaptar o plano inicial não apenas a um plano B mas também a um plano C.