Nunca encontrei ninguém completamente incapaz de aprender a desenhar.

John Ruskin, intelectual inglês do século XIX


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quinta-feira, 23 de março de 2017

Marrocos II

A cultura aqui é riquíssima, entra nos poros, palpita e, quando damos por nós, perdemos a respiração.
Perdemos a respiração quando ficamos imóveis na estrada entre meia dúzia de motas nos fazem tangente, como punhais amestrados, no trânsito caótico, nos talheres que nem sempre vêem a água dos dias.

Também ficamos em suspense quando, à noite, batemos palmas ao som do aplaude dos contadores de histórias, quando nos convidam para casa para literalmente oferecer um chá, quando somos envolvidos nos pátios milagrosamente frescos e no perfume das especiarias. Marrocos é muito, muito mais do se conta.



Mais do que impressionado, estou cada vez mais admirador da cultura islâmica. No respeito aos idosos, no encontro e no convívio de um povo que, de tanto viver o café e a rua dispensa a televisão - e a tecnologia em geral. Tenho visto menos caixas multibanco até do que na Índia, e os sinais da revolução digital parecem resumir-se de facto ao iphone, esse sim, bastante abundante.

Quanto ao resto, tudo parece ser de uma dignidade, uma dignidade austera que vai desde a franqueza das conversas na rua, do simples regatear com um vendedor, ao pátio florido que está cercado por muros de terra. Aqui a palavra vale, sem desculpas ou prorrogações, sem a hipocrisia do "enganei-me no troco" ou "enganei-me no seu pedido". O que ficou combinado faz-se, nem que Alá tenha de mover uma montanha e o deserto fique verde.


O resto é só habilidade, no contacto franco com os olhos, no maneio da bicicleta com uma só não em plena Medina, serpenteando esquinas empenadas e americanos desajeitados sem um toque ou arranhão. Toda a cidade, até as açoteias talhadas a medida, parece assentar num equilíbrio instável, no estertor das multidões de jovens; tudo cairia por terra à menor brisa, a terra de que são feitas as paredes

No fim do dia, tudo funciona. O sol poe-se, montam-se as tendas na praça Djema-el-fna, pousam no chão encardido os mais mirabolantes artistas de tudo e mais alguma coisa, e só no momento em que as luzes se acendem que percebo quão pobre pode ser a vida humana. Mais pobre ainda quando tudo se tem mas, afinal, a noite foi passada num sofá a olhar para o pequeno ecrã do youtube. Que numa só noite vi, com os meus olhos, acrobacias e gerinconças mais hábeis que qualquer vídeo do youtube poderia ensinar.


6 comentários:

hfm disse...

Que bela reportagem, Tomás.

Suzana disse...

Gostei de ler, muito bom!

Rita Catita Afonso disse...

Oh Tomás, isto não se faz :) adoro o primeiro. A pessoa em primeiro plano faz-nos olhar lá para o fundo, para onde ele está a olhar.

L.Frasco disse...

Parabéns, Tomás! Belo relato pontuado pelos desenhos!
(E obrigado pela partilha destes textos "guardados" no FB)

Tomás Reis disse...

Agradeço o apoio, estava com dúvidas se podia massar os sketchers com estes textos imensos. Mas achei que, assim, sempre lhes dava uso :)

Pedro Loureiro disse...

Isto são reportagens!