"-É para a Gare do Oriente se faz favor".
Aquela hora ainda nem sequer há muita luz, quanto mais trânsito, atravessa-se a cidade em menos de nada. O visor daquele Citroen diz que estão sete graus na rua, apesar do céu azul ainda sem sol. Pago os seis euros e pouco, atravesso a estrada e procuro um lugar onde beba um café. Olho para as capas do jornais e peço o Público, subo até à plataforma cinco, onde daí a nada vou apanhar um comboio para Aveiro.
Não existe meio de transporte mais pontual que o comboio. Às sete e nove em ponto, o Alfa Pendular com destino a Braga, abre as portas, carrega mais umas quantas pessoas, que junta às que entraram em Santa Apolónia, e faz-se aos carris, apressado. Lá dentro, quase todos os lugares estão tomados. Ainda não estamos a andar, e já eles e elas, com ar pseudo-executivo, sacam dos seus toshibas e agá-pês caros, muito luzidios, e começam a trabalhar. São sete e dez da manhã, e a pressa de fazer coisas e arreliar gente não pode esperar:
"-Ó senhor revisor, senhor revisor! Pode chegar aqui?", diz uma senhora muito bonita, sentada ao meu lado.
"-Eu comprei um lugar no sentido da marcha, que enjoo, e o lugar que marca aqui é ao contrário!"
Com um ar educado, e de quem vê estes filmes todos os dias, o revisor responde:
"-Mostre-me o seu bilhete por favor", já à espera do que vai encontrar.
"-O seu bilhete marca mesmo esse lugar, foi a senhora que se enganou na reserva, lamento. Mas pode sentar-se ali, naquele lugar, que não tem ninguém e agora já só entra gente em Coimbra B".
"-Mas aquele banco não tem uma mesinha como este, como é que eu faço para ir a trabalhar?"
O revisor faz-lhe um furinho no bilhete e deseja-lhe boa viagem, por entre um resmungo da senhora.
Li o jornal tranquilamente, espantado por tanta gente ter esta vontade para trabalhar logo cedo, contente por não padecer desse mal.
Também sentado no sentido contrário à marcha, e sem enjoo, fiz este desenho, encadeado pelo sol que estava a nascer. Voltei a ler um bocadinho do jornal. Encostei-me para trás e acho que adormeci, sem trabalho, embalado pelo Alfa a pendular...

7 comentários:
Felizmente para nós, padeces de um outro mal...:D
Tão cedo para ir a trabalhar, ou se dormita ou se desenha :)
Então e um desenho de Aveiro?
Tens razão Suzana, tantas vezes que aí vou em trabalho, e nem um desenho. Tenho de resolver isso...
:)
"Pendulas" muito bem no Alfa caro amigo Nélson.
É sempre tão bom ler as tuas histórias!
Adorei os requintes da tua história!
E como os fixaste no desenho.
Espero que viajar de costas não signifique trabalhar para trás, belo registo, desenho e história.
Nada melhor que uma boa história para acompanhar um bom desenho.
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