Nunca encontrei ninguém completamente incapaz de aprender a desenhar.

John Ruskin, intelectual inglês do século XIX


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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Dias pequenos

Café A Brasileira, em Braga

      Pelas ruas da cidade, outubro adentro, os dias encolhem.
   Os passos de outono percorrem as fachadas, agora mais baças e de janelas que se vão fechando. Já não são quentes e pesados, sem destino nenhum ou à procura do alívio da sombra, levam na cadência um destino com tempo marcado. Cruzam pessoas de malha pelas costas, a quem os calções e as saias cresceram com o diminuir dos dias. O pregão do gelado vai sabendo a castanhas, entoadas como quentes e boas. Quentes porque já vai apetecendo, boas porque, nos dias pequenos, sabem melhor.
   Nos dias que vão ficando pequenos são outros os sons da cidade. O livre minhoto, adornado pela doce textura da bossa nova e o ritmo cortante do flamenco, aqui e ali salgados por outros sons distantes, é agora um plácido rumorejar que ondula nas folhas que caiem atapetando o lajedo.  A música já não é a do conjunto que toca no coreto. É a do violino perdido na travessa que já não grita, vibrante, La Traviata, mas sussurra, numa serena mansidão, o amarelo avermelhado do Outono de Vivaldi. Os sinos, os da Sé e os outros, ouvem-se agora sem abafo, mais límpidos e acutilantes, lembrando as horas … também elas mais pequenas.
   O sol ainda brilha. Esbatido pela névoa dos dias pequenos já não queima, aconchega num abraço morno. Nas esplanadas os guarda-sóis sombreiam cadeiras que se amontoam vazias, o seu esvoaçar já não anuncia uma brisa que refresca, mas um ar agreste que arrepia. E, depois dos sinos avisarem as 3 da tarde, ouve-se “lá dentro está-se melhor”.
   É, nestes dias em que o sol vai ficando pequeno e o tempo é de lavar os cestos, que a cidade morna nos pede e oferece companhia e que, colhendo-a, nos deleitemos com a safra.
   Pelas ruas de Braga podem ser grandes os dias que vão ficando pequenos. 
   (Mário Carvalho | 2018)