Nunca encontrei ninguém completamente incapaz de aprender a desenhar.

John Ruskin, intelectual inglês do século XIX


Pensamos que o Diário Gráfico melhora a nossa observação, faz-nos desenhar mais e o compromisso de colaborar num blogue ainda mais acentua esse facto. A única condição para colaborar neste blogue é usar como suporte um caderno, bloco ou objecto semelhante: o Diário Gráfico.


Neste blog só se publicam desenhos feitos de observação e no sítio

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quarta-feira, 26 de março de 2014

Só neste país (é que se diz só neste país)

Na sequência da petição para sensibilizar direcções de museus para a possibilidade de desnhar no interior dos mesmos, escrevi à Rita Caré (que me incentivou a partilhar aqui) o seguinte.

Corria o Verão de 2010 e eu andava a desenhar na zona do Castelo, em Lisboa. No horizonte estava a publicação do livro da Quimera sobre diários gráficos em Lisboa, e a mim tinha-me calhado em sortes o percurso entre Benfica e o Castelo. Pensei que valeria a pena dar um salto ao Museu do Teatro Romano, ali ao pé da Sé, numa piscadela de olho ao período Romano de Lisboa. E lá fui.

Já tinha ido ao referido museu anteriormente, e sabia ao que ia. Entrei e fui direito a uma escultura de um tronco humano reclinado, e pus-me a desenhar. Passado pouco tempo, sou interpelado pela funcionária que estava à entrada do museu, perguntando-me o que estava a fazer. Eu disse que estava a desenhar e ela informou-me que não o podia fazer. Eu contra-argumentei, e pedi para falar com a directora. O diálogo seguinte tomou laivos de surrealidade, quando a funcionária regressa com um telefone na mão e a directora em linha. Informei a directora de que já tinha desenhado em muitos museus em vários países e nunca antes me fora vedado o acesso ao desenho. "Teve muita sorte", disse-me a directora, dizendo que eu necessitaria de uma autorização para desenhar ali. Perguntei-lhe se me a podia dar por telefone, mas não, não podia, tinha de ser por escrito. Fui-me embora. E o Museu do Teatro Romano, que poderia ser divulgado gratuitamente no livro da Quimera, ficou de fora do mesmo.

E assim foi. Já tive funcionários de museus trazerem-me cadeiras para desenhar (Alemanha e Nepal). Já tive inclusive uma equipa de televisão da filmar enquanto desenhava num museu (Croácia). Luzes acendidas para que melhor pudesse ver (Irlanda). Geralmente ficam-se pelos sorrisos. Desenhei em museus na Turquia, em Omã, na França, Nepal, Alemanha, Irlanda, Espanha, Croácia, Estados Unidos da América. E aqui vem a parte Luso-fatalista, mas que neste meu caso é a mais pura das verdades— só neste país (é que se diz só neste país, canta o Godinho) é que me foi vedada a possibilidade de desenhar num museu.

desenho feito no Museu de História Natural de Braunschweig, onde um funcionário me veio trazer uma cadeirinha e mem mostrou como acender a luz sobre a ave empalhada, de modo a estar mais confortável e ter melhor iluminação

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Türk Postallar vol10: Duran Adam

Gezi foi devolvido à população. Ou assim diz a retórica do governo, depois da brutal operação policial dia 15 de Junho, que não poupou nada nem ninguém. Após mais um dia de violentos embates, a situação em Istambul acalmou— e a entrada no Parque Gezi está barrada pela polícia.

Enquanto a polícia montava cerco e gaseava o Hotel Divan, onde alguns manifestantes se refugiaram depois da carga policial, uma legião de trabalhadores camarários destacada para o local retirava todos os vestígios da acampada. E, imagine-se, plantava árvores, o que é bastante bizarro atendendo que a intenção do governo sempre foi desde a primeira hora demolir o parque. Para quê isto, então? Simples, tem duas razões. A primeira, para discursos internos. Dia 16 já Recep Tayyip Erdoğan batia no peito afirmando num comício em Istambul que agora os verdadeiros ecologistas estavam em acção, no tal parque libertado das forças opressoras. A segunda é mais matreira— ao plantar uma centena de árvores no relvado, retira-se efectivamente espaço para futuras acampadas. Agora para montar tantas tendas, só destruindo o que foi plantado (e que, segundo o jornal Hürriyet, inclui muita roseira, o que está bom de ver também dá mau estar ao campista)— coisa que seria bradada até à exaustão pelo Primeiro-ministro: "Estão a ver? Que tipo de ecologistas são estes que destroem árvores? São saqueadores que só querem destruir!" (este discurso não foi feito, sou eu a antever atendendo ao que tem sido a tónica das intervenções de Erdoğan).

Desde dia 16 algumas coisas mudaram. Uma dessas mudanças foi o aparecimento pontual de pequenas milícias armadas com paus e facas que, com a conivência policial, têm atacado manifestantes. A outra foi a de novas formas de protesto. Uma delas foi iniciada por Erdem Gündüz. Dia 17 de Junho Erdem dirigiu-se a Taksim, e parou frente ao Centro Cultural Atatürk. E ali ficou, parado, a olhar para uma enorme tela com o busto de Mustafa Kemal Atatürk (o fundador da Turquia moderna) que cobre parte do edifício. E ali esteve de pé, durante oito horas a fio. E assim nasceu o protesto Duran Adam (literalmente Homem Parado). Quando Erdem abandonou a praça Taksim, já uma dezena de outros manifestantes o imitavam. Perante isto, a polícia resolveu deter quem ali estava parado, a olhar para Atatürk.

Protestos silenciosos em frente ao Centro Cultural Ataürk, na Praça Taksim

O protesto pegou, e desde então centenas de pessoas têm acorrido ao local, e ali ficam paradas, de olhos postos em Atatürk. E o protesto continua. Her Yer Taksim Her Yer Direniş (Em todos os lugares Taksim, em todos os lugares resistência). Ainda é só o começo, dizem os manifestantes.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Novo Flag


Honra feita ao extraordinário trabalho do PeF que tem desenhado sobre condições muito complicadas.
O nosso blogue merece trabalho desta qualidade. Foram várias as agências de notícias que nos solicitaram o contacto do PeF para poder dar maior visibilidade aos desenhos que ele estava a fazer.

É uma verdadeira honra pertencer a um grupo de pessoas fantásticas como estas!

sábado, 15 de junho de 2013

Türk Postallar vol 09: cá vamos nós outra vez...

"Amanhã temos uma manifestação em Istambul. Dirijo-me aos manifestantes em Taksim. Ou desocupam o parque, ou as forças de segurança saberão como fazê-lo."

—Primeiro-ministro Turco Recep Tayyip Erdoğan, numa manifestação do seu partido AKP hoje em Ancara (um link para esta notícia aqui)

Horas antes, em Gezi, os manifestantes decidiram reduzir o número de tendas mas manter o acampamento. As exigências mantêm-se (podem ler aqui o mais recente comunicado da plataforma Solidariedade Taksim).

Um pinguim em Gezi— um dos ícones destes protestos, satirizando os média Turcos e em particular a CNN TÜRK que, durante os tumultos de 31 de Maio, exibiu entre outras coisas um documentário sobre pinguins.

Amanhã todos os caminhos vão dar a Taksim. Isto não vai ser nada bonito...

actualização: após as declarações do Primeiro-ministro e renovada ameaça de violência policial, os manifestantes estão a tentar convocar um milhão de protestantes para Taksim.

nova actualização: a polícia está agora (18:50 em Portugal) a carregar sobre os manifestantes, deixo um link em directo para o que se está a passar: http://www.vice.com/read/tim-pool-live-streaming-from-istanbul


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Türk Postallar vol 08: Da Decência

No momento em que escrevo, a sitação é a seguinte: Gezi continua local de protesto pacífico, a polícia cerca a estátua da República no centro de Taksim e mantém um enorme dispositivo policial em torno da praça, disperso pelas ruas e ruelas limítrofes. Os jornais divulgam que só em Istambul foram utilizados cento e cinquenta mil projécteis de gases lacrimogénio e pimenta, bem como três mil toneladas de água (neste vídeo é bem visível o absurdo de gás lançado sobre os manifestantes, atente-se no som de cartuchos a ser disparados durante todo o vídeo— gás esse que não só afecta os protestantes como se pode ver aqui). O número de mortos ascende a quatro, o de feridos a vários milhares. Nas redes sociais corre a informação que o governo está a proceder a retaliações sobre os médicos voluntários que têm tentado socorrer as vítimas da repressão policial. As vinte e quatro horas de ultimato do Primeiro-ministro foram substituídas por um encontro surpresa com representantes da Plataforma Taksim Solidarity que durou até ao início da madrugada de hoje, e desta reunião resultou para já a garantia por parte do governo de respeitar a ordem judicial para manter Gezi intocado, enquanto decorrem os recursos na justiça para revogar esta decisão. Primeiro-ministro e Presidente da Câmara de Istambul discursam sobre a necessidade de acabar com a ocupação de Gezi, que, de acordo com eles, veda o acesso ao parte de parte da população. Vive-se para já um período de alguma acalmia, temperado pelas fortes chuvadas que se abateram sobre Istambul esta manhã.

Concerto de Saz no Parque Gezi— havia bastante mais gente, eu é que entretanto fui interrompido por alguns pedidos para desenhar retratos e não consegui completar o desenho

Mas o que aqui gostava de deixar escrito são os exemplos de decência de civilidade dos manifestantes de Gezi, que têm sido um brilhante contraponto à desproporção de violência sobre eles exercida (um relato de uma detenção pode ser lido aqui). Anteontem um polícia de intervenção foi atingido por um pedaço de madeira que caiu do Centro Cultural Atatürk (podem ler a notícia aqui). Os primeiros socorros foram prestados pelos manifestantes, os mesmos que têm sido espancados e gaseados, e apelidados de rufias. Ao apelo do Presidente da Câmara para que as mães retirassem os seus filhos de Gezi, as mães acorreram. E fizeram de braço dado um cordão humano em torno do parque, dando o seu apoio aos seus filhos que ali mantêm o protesto pacífico há quase vinte dias (um artigo noticiando isso mesmo aqui). Ontem Taksim encheu-se pela segunda noite para assistir a um concerto de piano de Davide Martello, que se associou ao protesto e tocou até ao raiar do dia (aqui uma mostra).No parque continua o enorme espírito de entreajuda e voluntarismo que tem acompanhado, quer na organização da resistência pacífica, quer na limpeza do local e zonas circundantes. O governo tem-se esforçado para passar uma imagem negativa dos manifestantes, frequentemente apelidando-os de terroristas, culpabilizando-os por um decréscimo do número de turistas em Istambul, por prejuízos causados no comércio local e por denegrirem a imagem externa da Turquia.

Dois manifestantes em Gezi, que insistiram em ser desenhados. Um era de (Şanlı)Urfa, o outro volta não volta falava num idioma que eu desconheço e que assumi ser uma das línguas Curdas (qual, não sei)

Sobre esta última frase, tenho a acrescentar um reparo. Do que tenho visto, os manifestantes, o seu protesto pacífico e o seu civismo são sem dúvida dos melhores cartões de visita para este país.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Türk Postallar vol 07: Taksim revisitada

Souvenir de Istambul, com os cumprimentos do Tio Sam (mas poderiam ser cumprimentos de uma qualquer indústria militar Brasileira, pois este país também vendeu bastante armamento não-letal (dizem eles) à Turquia.
Uma pessoa nem sabe por onde começar: são tantas histórias que é difícil escolher. Uma coisa é certa, nos dias que correm a Turquia é um local perigoso para quem fura o cerco montado à informação, quer sejam utilizadores de redes sociais, quer serjam canais televisivos nacionais ou estrangeiros. Hoje mesmo uma boa dose de canais televisivos foram intimados judicialmente por terem feito a cobertura da carga policial de ontem (podem ler a notícia aqui). A justificação? Ser exposto às imagens transmitidas pelas televisões afecta o desenvolvimento das crianças e da juventude. Há poucas horas dois jornalistas Canadianos foram detidos. Isto a juntar às dezenas de detidos por alegadamente difundir incitações à violência.

Pairando sobre tudo isto, o Primeiro-ministro continua a sua maratona de discursos divisivos. À chegada do périplo pelo Norte de África foi recebido por uma multidão no aeroporto de Istambul que entre outras coisas gritava: "Vamos a eles, vamos esmagá-los!". A mesma cena repetiu-se em Ancara, com Recep Tayyip Erdoğan a inflamar ainda mais os ânimos. Conto-vos apenas uma hitória: num dos dias de confrontos frente ao Palácio de Dolmabahçe, os manifestantes refugiaram-se na mesquita mais próxima. Neste local socorreram quem necessitasse de auxílio médico, ou refúgio das toneladas de gás despejadas. O Primeiro-ministro, nos seus discursos, disse que os manifestantes entraram calçados, a beber cerveja. Que insultaram senhoras cobertas com véu, e com isto insultaram a sua mulher e filha. Estas palavras foram categoricamente desmentidas pelo imã da mesquita de Dolmabahçe e pelo muezzin. Parece não haver limites no populismo do Primeiro-ministro, que não hesita em recorrer a mentiras e alimentar ódios religiosos para levar a sua avante. Disseram-me hoje, não sei se é verdade se não, que o imã "foi de férias". Erdoğan disse que o muezzin quando falou estava condicionado pelos manifestantes. Acredite quem quiser.

Ainda nos rumores de rua, alguém me disse hoje que a razão da teimosia da construção do quartel Otomano em Gezi se prende com uma promessa feita a um sheik de que ali se faria um centro comercial. Outros apontam que ou a construção do centro ou a gerência das lojas estariam ligadas a familiares do Primeiro-ministro. São rumores de rua, valem o que valem, ou seja nada até que alguém se chegue à frente com provas concretas, se as houver. O que é certo é que por agora, o parque resiste. Até quando, não se sabe.

Ontem o dia foi bastante confuso. A manhã começou com forte aparato policial, supostamente para limpar as bandeiras na estátua da Repúlica e no Centro Cultural Atatürk, bem como com marcada presença dos média em Taksim— o que é de estranhar devido à fraquíssima cobertura dos mesmos até então. Curiosamente ontem também surgiram protestantes com cocktails-molotov— até então não se tinha visto em Taksim tal coisa. Igualmente interessante observar como a polícia tolerou a presença de um punhado de agitadores, permitindo o lançamento de múltiplos projécteis mesmo frente às câmaras. Os infames veículos TOMA, tão lestos a varrer manifestantes nos dias anteriores, agora dir-se-ia que esguichavam a meio-gás. Note-se que, quando às 20:15 carregou sobre uma praça com milhares de protestantes, a esvaziou em minutos recorrendo uma vez mais a demasiado gás-lacrimogénio (podem ver algumas imagens aqui). Os lançadores de projécteis tiveram muito mais tempo de antena perante as câmaras. Diz-se nos meios sociais que seriam ou polícias disfarçados ou apoiantes do governo. Este vídeo parece confirmar esta tese, onde se vê um deles a chamar o blindado TOMA (podem ver o vídeo aqui).

O governador de Istambul ontem prometera que a polícia não entraria em Gezi. Mas às 14:00 lá estava a polícia de choque a pôr o pézinho no parque. E isto um dia antes das anúnciadas reuniões entre o Primeiro-ministro e representantes dos manifestantes (que ocorreu hoje e teve tudo, muita gente do espetáculo e artes, faltaram apenas os representantes dos manifestantes). Quebrada qualquer relação de confiança entre governantes e protestantes, o impasse mantém-se.

E vem aí o fim-de-semana, onde estão já marcadas manifestações pró-governo, cuja finalidade será 'limpar as ruas' e eventualmente a tentativa de cumprir as declarações proferidas à chegada de Erdoğan: "Vamos esmagá-los!". Muita tensão no ar, e o que alguns acreditam ser um clima de pré-guerra civíl.  O Primeiro-ministro afirmou hoje que tudo estará concluído nas próximas vinte e quatro horas. Será assim? Não sei, mas p
enso que se vão assitir a coisas muito feias nos próximos dias.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Desenhos do PeF no P3

Basta conferir estes dois links: http://p3.publico.pt/actualidade/politica/8189/istambul-cobertura-desenhada-de-pedro-fernandes



Türk Postallar vol 06: Chapulling

Agora que o Primeiro-ministro regressou do seu périplo pelo Norte de África, que já lhe valeu um doutoramento honoris causa por contribuições para a humanidade (não são palavras minhas, podem ler aqui) por parte de uma universidade Argelina, continuam a decorrer conversações entre o governo e a plataforma Taksim, que se opôs à destruição do Parque Gezi. Vai sendo também actualizado o número de óbitos, quatro oficiais até à data, e vão-se detendo utilizadores do Twitter.
Parque Gezi em clima festivo e fervilhando de actividade, com todo o tipo de actividades desde aulas de ioga,
a campismo e leituras e, claro está, muita música. E muito
vendedor-ambulante, ou não fosse isto a Turquia.
Dos confrontos resultaram para já duas coisas (resultaram obviamente mais, mas neste texto apenas menciono estas): a redescoberta de Gezi por parte dos Istanbullular, e a criação de um neologismo: chapulling. Chapulling é a anglicização da palavra çapulcu (foneticamente tchapúljú), termo empregue pelo Primeiro-ministro Turco para se referir aos manifestantes. Çapulcu, numa tradução livre, significa rufia ou arruaceiro. Os manifestantes gostaram, e elevaram o mimo a verbo, ganhando este nova conotação: o de protesto e resistência. Temos assim várias pessoas que se identificam como çapulcular, e fazem-no com indisfarsável orgulho. Podem ler mais sobre o termo aqui.



E fica a dúvida, para quando a importação do chapulling para Portugal?

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Türk Postallar vol 06: Ve şimdi?

E os dias correm. Taksim continua barricada e transformada em local de permanente comício, e sem presença policial visível (excepto os eventuais polícias à paisana, que os há em bom número). Mais a baixo, junto ao Bósforo e ao Palácio de Dolmabahçe, os manifestantes regressam a cada noite para novos protestos e confrontos. A zona de Gümüşsuyu apresenta um dispositivo impressionante de cerca de dez barricadas, impedindo o acesso automóvel entre o estádio do Beşiktaş e Taksim.

Uma das muitas barricadas em Gümüşsuyu, entre Taksim e Beşiktaş. Enquanto a desenhava,
um jovem trepou ao carro e pousou para a fotografia, fechando a tampa do caixote do lixo.
Quando passou por mim, reparou que no desenho a tampa estava aberta. Voltou atrás e abriu-a.

Nesta mesma zona, enquanto estive a desenhar uma barricada cerca de uma hora, um exército de jovens voluntários metia mãos à obra e, munidos de luvas de borracha e sacos, apanhavam minuciosamente todo o lixo da rua numa enorme mostra de civismo. Só assim estas zonas barricadas têm conseguido manter-se limpas, uma vez que os camiões do lixo obviamente não passam as barreiras construídas pelos manifestantes. Pensei no dono do veículo que me detive a desenhar— ninguém gostaria de ver o seu carro embutido numa barreira, ou ardido ou escavacado. É lamentável.

No mesmo dia em que o Vice-primeiro-ministro apresentava um pedido de desculpas limitado sobre a actuação policial, que teria tido um efeito bem vincado se fosse apresentado pelo Primeiro-ministro, a polícia deteve cerca de 25 utilizadores do Twitter por difundirem alegadas mentiras sobre o Primeiro-ministro. Uma no cravo outra na ferradura, fala-se em acalmar ânimos ao mesmo tempo em que se começa o ajuste de contas com as redes sociais, que tiveram um papel sem paralelo na mobilização dos manifestante e na denúncia dos abusos policiais destes últimos dias. Aguarda-se agora a chegada do Primeiro-ministro para perceber que rumo tomarão as coisas. O Presidente Gül tem-se distanciado do executivo governamental, e acena com um hipotético chumbo na polémica lei sobre venda de álcool caso encontre inconstitucionalidades na mesma. Para já está em vigor uma greve de dois dias de parte dos funcionários da função pública, solidários com os manifestantes e manifestando-se contra a repressão da polícia.

E assim estamos. Como dizia uma manifestante outro dia: "Tudo pode acontecer".

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Türk Postallar vol 05: Tayyip nereden?

Tayyip foi de viagem até Marrocos. Dizem as más línguas que a viagem não estava programada. Dizem os optimistas que Tayyip não as mediu, e perante tal levantamento popular, que o melhor era jogar pelo seguro e se, como dizem os esperançosos, se existir um apoio do exército à população, pôr-se ao fresco para um país amigo.

Istambul é rápida a recuperar do abalo do fim-de-semana. Hoje de manhã a Istiklal, que na 6ª feira tinha sido literalmente forrada a cartuchos (uma foto aqui) e grafitada de alto a baixo (por novos e velhos, como se pode ver aqui) estava numa furiosa azáfama para apagar todos os vestígios da recente turbulência. Vidraças em curso de ser mudadas, limpezas furiosa de grafitos com lexívias, detergentes, ácidos e até rebarbadoras, um pouco de tudo se via. Até alguns turistas.

Junho é época forte no turismo em Istambul. Costumam ser aos milhares, acotovelando-se pelas ruas e atracções históricas da cidade. Hoje eram poucos. Isto de fazer cargas policiais durante dias a fio acaba por também fazer mossa no bolso (para além das mossas evidentes nos manifestantes, só em Istambul ascendem a quase dois mil). Encontrei-me com o Luís Simões, que está de passagem por Istambul a caminho da Rússia, e, dada a calmaria generalizada, decidimos ir desenhar a Torre de Galata— onde se tornou uma vez mais óbvia esta ausência de turistas.

Torre de Galata, de onde Hezarfen Ahmet Çelebi se lançou no
século XVII, tornando-se no primeiro planador inter-continental

Após o desvio por Galata, rumámos a Beşiktaş para ver o local que nas últimas duas noites tem sido o epicentro dos protestos. O número de autocarros da polícia aparcados em redor de Dolmabahçe era impressionante, dentro deles entediavam-se ou dormitavam um bom número de polícias de intervenção. Uma pessoa olha e fica a pensar: "Que será que lhes vai pela cabeça? Acham bem? Acham mal? Serão razoáveis? Serão cães raivosos? Que passará pela cabeça de quem sabe que daqui a algumas horas estará a balear concidadãos? Haverá remorsos? Ou satisfação de dever cumprido?". O número de polícias foi subindo a caminho da praça de Beşiktaş, particularmente junto ao Museu do Mar, suponho ser aqui perto o escritório do primeiro-ministro.

Estátua de Barbaros, em Beşiktaş— atrás desta, uma ínfima fracção da frota de autocarros
e polícias que se podia encontrar no local; em plano de fundo, o lado Asiático de Istambul

À medida que a tarde se ia finando, o número de manifestantes ia crescendo. Sobretudo moços de catorze, quinze anos. Muitas centenas. A estes iam-se juntando manifestantes adultos, junto à estátua de Barbaros (pirata para uns, almirante respeitado para outros). Junto ao estado do Beşiktaş Gimnastik Külübü um crescente número de pessoas ia ocupando as escadas frente a Dolmabahçe. Um míudo tentou grafitar um veículo blindado, e levou uns borrifos inofensivos vindos de uns orifícios nas laterais do carro. O canhão de água passou depois a seguir ominosamente o miúdo em questão, deslocando-se depois para um outro grupo de miúdos. Começaram as provocações de parte a parte. Uma e outra pedra choviam por cima do trânsito de fim-de-tarde, caindo sobre o couraçado. Este apontava o canhão directamente aos manifestantes. Depois a outros. Decidimos não ficar para ver o desenrolar da situação e retornámos a Taksim, calmíssima durante os últimos dois dias, passando por uma série de impressionantes barricadas feitas com tijolos e andaimes, e por inúmeros vendedores de máscaras anti-gás e óculos de mergulho. De tudo se faz negócio em Istambul.

Polícia de intervenção: Uma visão demasiado comum em Istambul

Türk Postallar vol 05: Tayyip Istifa

Domingo é dia de pic-nic, toda a gente o sabe. Nesga de espaço verde é rapidamente apropriada por famílias— e o espaço verde é um termo bastante lato, vai desde a floresta até ao relvado na rotunda. O importante é picnicar. E neste Domingo, Gezi não foi excepção— após ser tomado pelos manifestantes no Sábado, Gezi foi agora tomado por todo o tipo de gente, de manifestantes a famílias com crianças, enfim, todos aqueles que Recep Tayyip Erdoğan classifica de terroristas/naïfs manipulados/gente-que-não-respeita-a-democracia/etc...etc...etc... Em Taksim, seguiam os comícios perante uma praça à pinha. Da polícia, nem vivalma.

Criança brincando no parque-infantil de Gezi Parkı

Uma manifestante que nos viu a desenhar perguntou-nos se tivémos medo. "Só da polícia", respondemos. Disse-nos que houve manifestações em quarenta e oito cidades por toda a Turquia. E por toda a Turquia se repetiram cenas de uma brutalidade policial desmedida, desde agressões gratuitas a pedestres pacíficos, a tanques-de-água a tentar varrer pessoas para o mar, a disparos com balas reais (alegadamente há um morto em Ancara, vítima de um disparo de revólver efectuado pela polícia.

O primeiro-ministro, que é daquela estirpe de homens que raramente tem dúvidas e que nunca se engana, afiançou aos meios sociais amigos (aqueles que não cobrem os protestos) que não há volta a dar: o quartel Otomano é mesmo para construir. Para quê, ninguém parece saber, nem mesmo o primeiro-ministro, que afirma ainda não se sabe o que irá ocupar o quartel. "Talvez um museu, talvez outra coisa, ainda não sabemos." Mas se não sabem, para quê construir? Gente cobarde e pouco frontal é assim, mente e fala com palavras dúbias. Mas não ficou por aqui. Tayyip afirmou que o Centro Cultural Atatürk é mesmo para vir abaixo, e no seu lugar crescerá nova mesquita. Simbólico mais simbólico não há— em vez de um local cultural associado ao progressista e ferozmente laico fundador da Turquia moderna, teremos uma nova mesquita que ninguém pediu, numa cidade em que, dizem-me, há mais mesquitas que em Teerão. É assim a noção de estado de Tayyip Erdoğan, onde este anúncia o que se deve ou não fazer numa cidade, substituindo-se ao edil local (será um fantoche?), contra a vontade da população. E isto em alguém que deveria respeitar a laicidade do estado. Há ainda uma questão insidiosa sobre a construção desta mesquita. Ora com a nova lei que impede a venda de álcool em supermercados e mercearias entre as dez da noite e seis da manhã, veio uma outra que impede que essa venda seja feita a um determinado número de metros de escolas— e mesquitas... Continua portanto a ofensiva anti-alcoólica que começou há dois anos, durante o Ramadão, onde vários locais onde se vendia álcool com esplanadas foram proíbidos de as manter. Curiosamente foi uma das primeiras coisas que, ao acaso, desenhei, quando visitei Istambul pela primeira vez, em dois mil e onze.


Esplanadas de rua onde se jogava gamão e entre outras coisas, se bebia cerveja
(Maio de 2011, com a devida vénia à Catarina França, Cláudia Guerreiro e Pedro Loureiro:
possivelmente um dia juntaremos todos estes nosso desenhos e façamos algo com eles)

Por fim, o primeiro ministro virou-se contra as redes sociais, que apelida de ninho de mentiras, sobretudo esse tal de Twitter. Podem ler mais sobre estas declarações aqui (tentei aceder à versão Inglesa do jornal Hürriyet mas parece estar em baixo, será coincidência? É que este era um dos poucos jornais Turcos a cobrir os desenvolvimentos a par e passo). Antes de sair do ar, o primeiro-ministro lança ainda uma ameaça velada: diz ele que lhe têm ligado da sua enorme base de apoio a perguntar: "Erdogas, a malta fica-se?" e ele, o benemérito, a acalmar a turba sedenta de sangue: "acalmai-vos, são pobres tolos manipulados (ou extremistas, dependendo da ocasião), eles não sabem o que fazem." O que parece ser algum bom senso não passa de mais uma ameaça encapotada: ou se portam bem, ou atiço-vos parte da população e aqui uma guerra cívil. Bravo, senhor estadista!

Nas ruas o pessoal celebrava a reconquista de Gezi. E celebrava-o de diferentes formas, sendo umas das mais surpreendentes e tocantes o modo como se organizaram para limpar o caos dos dias anteriores. De luvas e sacos de plástico, legiões de cidadãos (esses meleantes terroristas extremistas) puseram Taksim, Gezi e Istiklal num brinquinho. E não foi pêra doce, pois o grau de chavascal, entre cartuchos, vidros partidos, pedras da calçada e lixarada em geral era mais que muito. É de se tirar o chapéu à excelente organização dos manifestantes, que, graças ao vil Twitter, conseguiram entre outras coisas desmascarar a brutalidade da polícia, organizar grupos de médicos voluntários para acudir às vítimas, limpar os escombros, distribuir comida a quem quisesse entre outras coisas.

Istiklal esteva de novo aberta ao negócio, mas de faces pintadas. Por todo o lado grafitis que iam desde o "Democracia do Gás-pimenta" ao "Gás-pimenta: Pele Bonita :)!", a uma série de mimos dedicados ao senhor Erdoğan (tudo menos "palhaço"— há limites, caramba!). Várias caixas multibanco mais próximas de Taksim foram completamente destruídas, e várias vidraças estilhaçadas. Fica a dúvida: por quem? Possivelmente pelos manifestantes, talvez pela artilharia pesada da polícia. Seja como for, não houve notícias de pilhagens. Erdoğan, no discurso de quem tem fraca  (ou nenhuma?) espinha, chora o vandalismo e pergunta se é isto a democracia. Não é certamente, mas também não é utilizar os poderes de estado para brutalizar manifestantes pacíficos.

Já a noite tinha caído quando abandonámos Taksim. No local do mega-estaleiro, a população entretinha-se a pousar sobre as carcaças da maquinaria entretanto incendiada, e a fazer fogueiras com os materiais de construção. Parecia tudo tranquilo, mas na realidade a turbulência continuava no bairro de Beşiktaş. Como na noite anterior, milhares de manifestantes rumaram colina a baixo em direção ao palácio de Dolmabahçe, junto ao qual ficam os aposentos do primeiro-ministro em Istambul. A polícia manteve o local barricado, e o que de violento se tem passado nesta cidade nos últimos dias tem sido aqui. Muito gás lacrimogénio, pessoas encurraladas na mesquita de Dolmabahçe, uma retroescavadora tomada pelos manifestantes e utilzada contra os tanques policiais, um cordão humando de um quilómetro passando materiais para construção de barricadas e muito apoio popular (como se vê neste vídeo do bairro de Ciangir limítrofe a Taksim e Beşiktaş). Não sei como param as modas nesta segunda-feira, dia de trabalho. Nem que será de Gezi durante a semana que agora começa. É como disse uma manifestante ontem: "tudo pode acontecer".

P.S. A quem interessar— fui contactado pelo Diário de Notícias, que me pediu permissão para utilizar os desenhos que aqui tenho publicado, e algumas ideias sobre o que aqui se tem passado. É possível que surja hoje algo sobre isto na edição impressa, mas sem certezas, que a decisão editorial não é garantida.

domingo, 2 de junho de 2013

Türk Postallar vol 04: Katil Polis

O dia acordou tal como terminou ontem, a ferro e fogo. Durante a noite, milhares de manifestantes vindos da parte Asiática atravessaram uma das pontes do Bósforo para se juntar aos protestos em Taksim. A polícia tinha a praça tomada e barricada por todos os lados. Nem por Beşiktaş, nem pela Istiklal, tampouco por Tarlabaşı, Cihangır, Harbiye ou Talimhane se conseguia atravessar a saraivada de gás lacrimogénio. E o gás não tem servido apenas para cegar e dispersar os manifestantes— há pelo menos uma vítima mortal dos disparos. E manifestantes atingidos com disparos de cartuchos de gás, por vezes na cabeça. Alguns à queima-roupa.

A manhã foi particularmente violenta em Taksim. Só conseguimos chegar à praça da parte da tarde, onde encontramos um mar de gente ocupando o local, e a polícia acantonada nas escadas de acesso ao Parque Gezi. Parece que um pedido do Presidente Abdullah Gül fez com que a polícia abandonasse a praça. Alguém com o mínimo de bom senso. Ao mesmo tempo,
Recep Erdoğan acusava os manifestantes de, mesmo os que são boas pessoas, estarem a ser manipulados, e aconselhava-os a abandonar a praça, garantindo que o centro comercial é mesmo para avançar e não há volta a dar. E ameaçando que, se conseguem reunir cem mil, ele consegue reunir um milhão de manifestantes. Perante tanta falta de tino, houve espaço para um momento 'Malucos do Riso', com o ministro da informação Sírio a apelar ao fim da agressão Turca aos manifestantes (podem ler a notícia aqui).

Manifestantes em Taksim, sempre com algum tipo de máscara
Voltando à escadaria de Gezi, perante a avalanche de manifestantes jorrando de todas as artérias de Taksim (fala-se de um milhão, eu sinceramente não sei, mas garanto nunca ter visto tanta gente junta, ocupando densamente todos os bairros em redor da praça), deslocou-se para o lado permitindo o acesso a Gezi. Quando Gezi já estava bem recheada de manifestantes, largou sobre eles valente gaseamento. Quem é escroque, é escroque e não há nada a fazer. Passado esta salva de gás, tornaram a disparar sobre os manifestantes, e mesmo na outra ponta da praça onde estávamos se fizeram sentir os efeitos do gás. Os olhos piscos, mal os conseguia abrir. A pele ardia na face e, aos tombos, corremos na direcção da Istiklal. Um manifestante falava em gaseamento com gás-laranja, algo que não foi nunca confirmado. Por todo o lado o auxílio surgia sob forma de limões, pacotes de leite, e borrifadores com uma mistura de água e anti-ácido daqueles para problemas digestivos. Recolhemos uma cápsula de um cartucho made in USA como nos tinha mostrado um manifestante ontem. Pelo que vi em algumas fotografias, a polícia tem utilizado vários tipos de cartuchos, balas de borracha e até balas reais (oxalá tenha sido para o ar). Do parque Gezi, subia agora uma enorme coluna de fumo negro, que ninguém soube interpretar na altura. Aparentemente seriam manifestantes a queimar algo.

Manifestantes na Praça Taksim observam uma coluna de fumo erguendo-se do Parque Gezi
Mais lançamento de gás, menos lançamento de gás, as coisas acalmaram em Taksim e a praça foi completamente ocupada pelos milhares de manifestantes que pediam a demissão do primeiro-ministro. Ao princípio da noite, parece que a polícia carregava sobre Beşiktaş, mas em Taksim vivia-se um ambiente de jamboree, com música e muita, muita cerveja. Entretanto em Ancara, as coisas não foram tão calmas durante a tarde, tendo-se assistido a violentos confrontos e mais bestialidade policial (quem queira ter um valente nó no estômago, clique aqui). No regresso a casa, vi ainda uma barricada montada à entrada do bairro. A ver vamos como acorda Istambul amanhã...

Algumas fotografias e outro relato do que tenho escrito aqui.

sábado, 1 de junho de 2013

Türk Postallar vol 03: Gezi Parkı

Gezi Parkı não é o maior parque de Istambul. Nem o único. Mas em Beyoğlu é, se não o único, um dos poucos. O parque Gezi tem outra particularidade, fica colado à Praça Taksim.

A Praça Taksim é o lugar de eleição para os protestos em Istambul. Manifestação que é manifestação desemboca ali. De certo modo, em relevância é comparável à Praça Tahrir, no Cairo.

Erdoğan (foneticamente: Érdóã) não pode ser um democrata. Eleito democraticamente, parece ter pavor dessas coisas chamadas liberdades. Desde que tomou o poder, há mais de dez anos, tem em pézinhos de lã vindo a tornar um estado laico num estado Islâmico. Ora censura a novela por ser indecente, ora troca a bebida nacional que sempre foi o rakı (alcoólico) por ayran (iogurte salgado e nada alcoólico), ora encarcera opositores e jornalistas em barda, ora proíbe o consumo de bebidas alcoólicas depois das dez da noite. E, ultimamente, parece ter desenvolvido um novo apetite— o uso desmesurado de gás-pimenta. Diz-se que só no 1º de Maio deste ano foram 14 toneladas de químicos em cima dos manifestantes.

Mas voltemos ao princípio. A Praça Taksim e o Parque Gezi são nos dias que correm um mega-estaleiro que, entre outros planos megalomaníacos, visa a construção de um túnel do Marquês. Outro projecto é a construção de um quartel Otomano (que existia no local e há décadas foi arrasado), que, uma vez reerguido, servirá o nobre propósito de ser... centro comercial. E este novo shopping ficará— ora bem!, mesmo em cima do Parque Gezi.

Ora Istambul não é propriamente um modelo de cidade-verde. Podem-se percorrer quilómetros fora do centro histórico sem se encontrar um jardinzinho que seja. Donde, um parque a menos faz muita diferença. E faz diferença também, pois há a suspeita que não é só o parque que está em causa. Mas a praça pública, no sentido mais lato e nobre da palavra, o ponto de encontro de uma cidade, numa cidade onde o ponto de encontro é cada vez menos público.

Vai daí um grupo de Istanbulus decidiu fazer uma acampada no Parque Gezi, de modo a proteger os plátanos do abate camarário. Até aqui nada de novo. O ambiente vivido era semelhante a acampadas que já vimos por esta Península afora. Diz que havia ioga, diz que havia leitura. Diz sobretudo que era um protesto pacífico. Isto até à madrugada de 6ª feira.

Às cinco da manhã a polícia carregou sobre o acampamento, não dispensando, claro está, o uso do gás-pimenta. A talho de foice, tratou de incendiar algumas tendas e montar um cerco ao parque. A população não gostou, e acorreu aos milhares a Taksim. E seguiu-se nova carga policial e novas rodadas de químicos.

Dizia um anúncio que passava há poucos meses na televisão, que há uma linha que separa não sei quê de não sei que mais. Eu adapto: há uma linha que separa uma democracia de uma autocracia. E há outra linha que separa um homem de uma besta. E essa linha foi claramente passada nas últimas horas em Istambul. Houve de tudo: manifestantes alvejados com jactos de água
na face, que os projectaram pelo ar vindo a embater desamparados de cabeça na calçada, manifestantes atropelados por veículos blindados,
gás na estação de metro, um professor com as pernas partidas, um velhote que viu a sua orelha arrancada não se sabe como, uma manifestante que se não estiver morta a esta hora é um milagre. Em tudo um excessivo uso de violência e, lá está, muito, muito, muito gás-pimenta e outros químicos, tantas vezes disparados à queima roupa por uma polícia que só pode ser no mínimo sádica.

Perante tudo isto, a população como não poderia deixar de ser, reagiu. E Taksim está de novo a ferro e fogo, com milhares na rua noite fora, afrontando o estado policial que parece ter tomado conta da Turquia. Atatürk deve estar a dar voltas e mais voltas no caixão com tal estado de coisas.

Seguem-se alguns esboços feitos esta noite (31 de Maio), por entre nuvens de químicos. E mais tarde, bombas sonoras, que me fizeram dar um bom salto no ar, nunca tinha ouvido nada assim. Um manifestante veio ter connosco e perguntou-nos de onde éramos. Satisfeito por sermos estrangeiros disse-nos em tom de súplica: "digam o que se está a passar aqui a toda a gente, nos vossos países. Por favor." Um outro veio ter connosco e mostrou-nos um cartucho vazio: "é Americano. Vêem? Fabrico Americano". Alguns manifestantes distribuiam rodelas de limão para atenuar os efeitos do gás-pimenta– e asseguro que funciona, quando ia a encaminhar-me para casa passou-me um cartucho de gás a zunir a milimetros da cara, arrancando-me os óculos no processo, e que me deixou momentaneamente cego. Valeu-me o limão, depois de uma corrida quase às cegas para onde eu imaginava não haver polícia. A Samantha Zaza, com quem estava a tentar desenhar a manifestação, foi atingida com dois cartuchos de gás, numa perna e num pé. Felizmente nada de sério, mas ainda chorámos a bom chorar com tanto gaseamento. A zona norte da Istiklal ficou forrada a cartuchos vazios— e não é força de expressão.

Manifestantes erguem uma fogueira entre eles e a polícia. Ao fundo,
a praça Taksim, completamente tomada pelas forças policiais.
Alguns manifestantes juntam-se às dezenas batendo em tapumes de chapa ondulada.
A mesma chapa era também utilzada para erguer barreiras provisórias anti-tanque.
De borrifador com alívio para o gás-pimenta em punho, acudindo quem precisava,
andavam vários manifestantes. Outros tantos distribuiam rodelas de limão.
Manifestantes cantando e aplaudindo, enquanto não vinha nova dose de gás. Às
tantas, houve fogo de artifício em Taksim— não sei quem o largou mas a multidão vibrou!

Curiosamente, ou talvez não, os média Turcos ignoraram olimpicamente os tumultos, até agora, que não dá mais para assobiar para o lado. As manifestações alastraram a Ancara e Esmirna, com igualmente brutais cargas policiais.

Quem quiser ver algumas imagens sobre esta Primavera Turca, como já lhe chamaram, pode consultar este link ou este. Fica no entanto o aviso, há algumas imagens muito chocantes.

E estamos nisto... parece que amanhã há mais.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Türk Postallar vol 02: Três de (Şanlı)Urfa


A cerca de 50km da carnificina que grassa por terras Sírias, Urfa (ou Şanlıurfa, se assim o preferirem) parece passar ao lado do conflito. Parece— mas que conclusões de turista acidental terão a mínima relevância para o que quer que seja? Mas voltemos a Urfa (ou Şanlıurfa, lá está, parece que os nativos a páginas tantas acharam que Urfa não bastava, e toca de aditivar o nome do burgo com o termo şanlı, ou gloriosa), um dos berços da civilização plantado em pleno Crescente Fértil. E, até ver, berço da religião, com o mais antigo templo conhecido: Göbekli Tepe Razões de sobra para uma visita.


Göbekli Tepe, gravuras de Grous (e Avestruzes?), antes de uma valente bátega

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Urfa (ou, não sei se terei referido já, Şanlıurfa) tem História para dar e vender. É no que dá ser cidade que vem lançadíssima lá do princípio dos tempos (históricos). Diz que é terra de profetas, que foi ali que Abrão escapou por milagre à fogueira: do braseiro fez-se lago e assim nasceu o Balıklı Göl (ou Lago dos Peixes). Diz também que foi aqui que Deus se entreteve um pedacinho a atormentar, ou melhor dizendo, a deixar atormentar Job. Outros tempos. Mas para lá do reboliço de bazares e Renaults 12 brancos, Urfa (ou Şanlıurfa, fica ao critério do leitor), desenrola-se um labiríntico emaranhado de ruas e ruelas onde flui Árabe, Curdo e Turco. E se Dorothy confidenciava a Toto que lhe parecia já não estar no Kansas, a mim palpitava-me que já não estava na Turquia que (mal) conheço.

Fonte junto a uma mesquita, desenhada sob olhar atento de Ahmet, o Sírio

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Urfa (que muito antes de ser sequer Şanlıurfa foi Edessa), mais parece um queijo suiço. Ele é cavernas e cavernitas por toda e qualquer encosta. Gente dada ao trogloditismo já antes de Alexandre, o Grande, por ali ter passado. Gente dada que após a sua passagem, continuou a apostar nesta modalidade urbanística. E foi numa encosta esventrada, com escombros por todo o lado depois de uma expropriação à la Turka (que são de arrepiar, como foi no caso das evacuações em Tarlabaşı) que numa das muitas grutas a céu aberto entrámos numa necrópole Grega, com relevos talhados no calcário macio. E lixarada, como não podia deixar de ser. Ainda fomos convidados pelos donos de uma garagem mesmo ao lado a visitar a caverna deles, à qual se acedia pelas traseiras. Um grande painel de mosaicos, diziam-nos os mecânicos, mesmo no fundo da gruta. Ainda pusemos um pézinho nas escadas que desapareciam no breu, mas os escombros, o punjente cheiro a mijo e lixo e o facto de não se ver ponta de um corno levaram-nos a diplomaticamente declinar o convite. "Sabe como é, gostávamos, mas falta-nos lanterna..." Porque estas coisas, todos sabemos como começam, mas ninguém sabe como elas acabam...


Relevo Grego de um Centauro-hipocampo, durante saraivada grossa

sábado, 9 de março de 2013

Türk Postallar vol 01: Jurassic Land

Kalabalık. Ora aí está uma palavra que assenta que nem uma luva a quase todos os locais em Istambul— kalabalık significa multidão. Se são 10 ou 15 ou mesmo 20 milhões, depende a quem se pergunte, mas pouco importa, pois por toda a parte a dita multidão se faz sentir, umas vezes apenas visual e sonoramente, outras vezes sob forma de valentes empurrões e encontrões, que nisto de maralha, o ex-otomano é gente afoita.

A vida dá muitas voltas e as tômbolas da Santa Casa dão muitas mais, e quis o destino que me encontrasse hoje à tarde no Istanbul Forum (aqui como aí, a malta aprecia a romaria de fim-de-semana ao shopping). No dito Forum, parece que há para ali uma tal de Jurassic Land, atração paleontológica que fomenta a berraria da criançada antes, durante e depois da visita. Fui espreitar, mas não me aventurei para lá da porta, tendo antes assentado arraial no Jurassic Café. A partir daqui, fui controlando o pessoal que chegava, posava para uma foto em frente a um ferocíssimo Tyranosaurus rex (são sempre ferocíssimos, não são?— e a pingar sangue das fauces escancaradas, e a roncar e rugir a bom roncar e rugir, isto eram bichos que só estavam bem a fazer o mal...), e ia à sua vida.

Entrada do Jurassic Land, vista a partir do Jurassic Café - Istanbul Forum
Enquanto desenhava, ia tentando trocar umas palavras com os empregados— isto com muito boa vontade e pouquíssimo sucesso, uma vez que o meu domínio de Turco é muito bera. Mas diz que a intenção é que conta, e terminado o desenho fui trocar um vigoroso bacalhau com o empregado, sendo surpreendido com duas beijocas na face. Diz que é costume local entre amigos, bom sinal, sã camaradagem e assim. Está certo... Siga.

(Postado também em Urban Sketchers Istanbul, mas com menos floreados, claro está, que em Português é que a gente se entende)

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Polskie Pocztówki - vol. 01: Port Lotniczy Fryderyka Chopina

Vôo TP 581 para Lisboa: atrasado

No aeroporto Fryderyka Chopina em Varsóvia, enquanto esperava pelo vôo da TAP para Lisboa, ia desenhando parte do grupo de Polacos que esperavam o embarque para Lisboa.

Atrasos servem para isto: desenhos mais acabados. E viagens para, entre outras coisas, ver e desenhar feições diferentes.

E servem também para concluir que, de uma forma ou de outra, andamos todos ao mesmo.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Work in Progress - Chiado

Também eu me vi apanhado no tiro cruzado, uma vez por acaso, outra vez já avisado ao que ia. Aqui ficam os registos de dois dias distintos, e de quatro duelos - Manuela Rolão, Mário Linhares, Pedro Loureiro (sim, foi apanhado à má fila, num dois contra um) e Claudio Patanè (também apanhado de modo cobarde, pelas costas e à traição, enquanto pintava).

Manuela Rolão, 17 de Dezembro de 2011

Mário Linhares e Pedro Loureiro, 21 de Dezembro de 2011
Claudio Patanè, 21 de Dezembro de 2011

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

20º Encontro de Diários Gráficos - Bairro Alto

Se está no estendal de um bairro típico, é roupagem típica!

Uma amostra da roupa típica dos Lisboetas, t-shirts vermelhas, camisas aos quadrados - e coisas aleopardadas. Um pouco do que se viu e desenhou nesta belíssima tarde de Domingo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

domingo, 21 de agosto de 2011

Fluviário de Mora

Aproveitando a pausa de almoço dos trabalhos do atlas de aves invernantes e migradoras, fui até Mora.

Deixei Coruche para trás passando por anúncios do festival off road Coruche 2011 (que pena já ter passado, fiquei curioso sobre o "passeio off road nocturno com caça ao pirilampo" - promissor, não?). Na rádio voz do Sorraia alguém com sentido de humor particular passava sucessivos sucessos natalícios, uns atrás dos outros - o que, convenhamos, se adequava bem ao tempo tormentoso que estava, não fosse o calor e eu próprio ficaria perfeitamente convencido que a quadra se aproximava a passos largos.

Cheguei a Mora, na senda do fluviário e descubro que o dito não fica bem em Mora, fica mais para os lados do Cabeção. Tudo bem, a viagem até lá vindo de Coruche é bem bonita, subindo o vale do Sorraia - recomendo vivamente.

Foi a primeira vez que visitei o fluviário de Mora, e não sendo grande fã de zoológicos, achei interessante. Mais ainda pois a temática de peixes de água-doce portugueses não é fácil, uma vez que na maioria das espécies se tratam de bichos de pequenas a médias dimensões e cores apagadas. A exposição está cuidada e simples de seguir, os aquários eram bonitos e bem mantidos e os peixes estavam com muito bom aspecto. Pensei que podia fazer uma página de cabeças de peixes (e tirar algumas notas para projetos futuros). Sentei-me a desenhar alguns deles.





Ruivaco, Bordalo, Cumba e Enguia - Fluviário de Mora

Comecei por um Ruivaco, um pequeno ciprinídeo com a base das barbatanas encarniçada, endémica de Portugal. De esta espécie (e já que estavam no mesmo tanque), passei para um Bordalo - desta vez um endemismo ibérico. E desta, para uma Cumba (não cumbia!), um barbo que pode alcançar um metro de comprimento, endémica do sudoeste peninsular. Sendo a nossa fauna piscícola dulciaquícola nativa (apre!) constituída essencialmente por espécies herbívoras e insectívoras, a Cumba é uma excepção (sobretudo os exemplares de maiores dimensões como o que foi desenhado) pois incorpora muitas vezes na sua dieta pequenos peixes. Por último, uma espécie que dispensa apresentações, a Enguia.

A exposição vai alternando entre espécies nativas e exóticas, sendo estas últimas responsáveis por extinções locais (e de extinção local em extinção local, até à vitória final...) de muitas espécies - algumas que não se encontram em mais lado nenhum do mundo. Mas os pescadores querem fazer desporto (!?) e levar grandes Achigãs para casa (diz que dá luta, que o desporto (!?) é ainda mais desportivo (!?)), e portanto cuidam de introduzir tudo em todo o lado. E quem diz Achigã, diz Lúcios, diz Lúcio-perca, diz peixes-gato como o peixe-gato-gigante (diz que chegam aos 3m)... E como as espécies nativas não têm o carisma, digamos, de um panda-gigante, pouco importa que se extingam. Mais a mais vivem lá debaixo de água, onde nem as vemos. E longe da vista, longe do coração. Quanto vale uma extinção, afinal? Curiosa também é a associação da EDP a este projeto, uma vez que a construção de barragens é uma das causas de mudança nos habitats fluviais e consequente impacto nas espécies de peixes (e não só) - e com mais barragens projetadas para breve. Precisamos de energia, é certo, mas não seria preferível reduzir consumos, em vez de continuar a consumir mais e mais..? Enfim, tempos estranhos estes...

A última parte da exposição encontra-se reservada a espécies sul-americanas e africanas. Não resisti a desenhar esta Mata-mata (era disto que falava Scolari..?), com a sua expressão cómica (aposto que os pequenos peixes que lhe servem de alimento discordam da comicidade da dita).




Mata-mata, Chelus fimbriatus
Para quem não conhece, vale a pena conhecer o fluviário de Mora. E pensar nisto dos nossos rios e das nossas espécies. Que património natural também é património. E que extinções são, infelizmente, para sempre.