"Boa tarde, boa tarde"
"Podem-me desenhar, podem-me desenhar. Já me desenharam hoje"
"E até podem tirar fotografias, desde que não metam na internet"
"Quer dizer podem meter na internet"
"Chamo-me Paulo Monteiro, mas toda a gente me chama Pavarotti"
"Pavarotti com dois tês e um i no fim"
"Não vos faz diferença assim este pó para cima de vocês?"
"Faz hoje um ano que estou na comunidade Emaus, faz hoje um ano, a 15 de Julho"
"Agora estou no restauro, mas eu gosto mesmo é de andar na recolha"
"Já trabalhei para a worten a entregar electrodomésticos"
"E também já andei entregar daqueles garrafões de água nas empresas"
"Mas agora estou aqui, e enquanto estou aqui não penso em coisas negativas, só penso em coisas boas"
"Enquanto estou a trabalhar só penso em coisas boas"
"Incomoda-vos que eu fume?"
"Eu daqui bocado podia cantar para vocês"
"Nunca fui cantor nem nada, nunca andei no conservatório, mas um dia gostava de andar"
"Depois mandem-me chamar que eu canto para vocês"
Passavam das quatro e meia da tarde, estávamos a acabar a partilha dos desenhos. Distribuídos em roda na grande cozinha, com o Óscar, o cozinheiro natural de Moçambique nesta tarde transformado em modelo vivo, a escutar-nos com atenção. Até atender o telefone e começar a falar tão alto. Afinal, os invasores até éramos nós, que ousadia. Olhei para a porta de entrada e lá estava o Pavarotti, ninguém o tinha ainda ido chamar, mas palavra de honra que iria eu assim que acabássemos a nossa jornada dos desenhos, é que lhe tinha prometido. Parecia um daqueles concorrentes anónimos, nervoso e à espera que o chamem para o casting de um programa de talentos. Fiz sinal ao Mário que o Pavarotti queria cantar para nós. Desceu os dois degraus desde a soleira até ao chão da cozinha, fez uma introdução a desculpar-se que não sabia cantar, que que aquilo não era uma música, mas sim algo da sua invenção. Tomou um lugar de destaque no meio de nós, de camisa preta aos losangos brancos, aberta até ao meio e empoeirada de pó fininho das cadeiras que raspou toda a tarde. Cerrou os punhos, encheu o peito de ar e despejou um vozeirão inesperado para cima de nós. A postura corporal, a expressão e o sentimento daquele momento arrebatou cada um de nós, que deixou de respirar por breves instantes. Terminou em apoteose, recebeu um merecido e longo aplauso, e deu ainda mais razão a um dia formidável passado num lugar mágico, que recebe gente perdida e apenas quer saber o seu primeiro nome. E de seguida o chama de companheiro.
Foi um Sábado inesquecível. Fiquei com muita pena de não trazer aquele relógio vintage que desenhei no meu caderno, que só em casa me lembrei o quanto era encantador. Pousado no móvel da minha sala, e minuto após minuto virado naquela chapa preta, me faria lembrar daquele lugar e das suas gentes, e que a vida pode ser tão injusta e ao mesmo tempo maravilhosa. E que vale sempre a pena acreditar e ter esperança.
E obrigado Mário pela possibilidade de fazer parte deste formidável programa dos
10 years 10 classes. Espero ter estado à altura.